
Entre números e histórias: os bastidores dos escritórios de contabilidade que mantêm São Paulo em movimento
O relógio marca 7h15 quando Marcelo Teixeira, 47, estaciona seu carro no subsolo de um prédio comercial na Avenida Paulista. Enquanto o elevador sobe até o 14° andar, ele mentalmente organiza sua agenda do dia. "Tenho duas reuniões com clientes novos, precisamos finalizar as declarações trimestrais de três empresas e ainda resolver uma pendência na Receita Federal", enumera, ajustando a gravata discreta, antes de abrir as portas de vidro onde se lê "Tag Contabilidade".
Na megalópole que abriga o maior PIB do país, escritórios de contabilidade como o de Marcelo são engrenagens essenciais da máquina econômica paulistana. Só na capital, a Junta Comercial registra mais de 4.800 empresas contábeis ativas – número que cresceu 12% nos últimos cinco anos, mesmo com a digitalização acelerada do setor.
"As pessoas acham que é só lançar números num sistema, mas cada CNPJ tem uma história por trás", filosofa Carmen Oliveira, 52, que comanda um escritório familiar na Mooca há quase três décadas. Em sua sala, onde uma calculadora antiga divide espaço com três monitores modernos, ela mostra o retrato emoldurado de seu pai. "Ele começou atendendo os pequenos comércios do bairro em 1975, fazendo tudo à mão."
Da tradição à inovação forçada
O setor contábil paulistano viveu uma transformação acelerada nos últimos anos. "Quando veio a pandemia, tivemos que nos reinventar da noite para o dia", relata Rodrigo Mendes, cuja empresa no Tatuapé atende principalmente bares e restaurantes. "Clientes que mal sabiam usar e-mail precisavam urgentemente de orientação sobre créditos emergenciais e renegociação de dívidas."
Em seu escritório, Rodrigo mantém um quadro com fotos dos estabelecimentos que conseguiu ajudar a sobreviver durante a crise. "Foi quando muitos entenderam que contador não é só aquele profissional que cuida de obrigações fiscais, mas um consultor financeiro crucial."
A busca por essa reinvenção também é sentida nas faculdades. Na USP, o curso de Ciências Contábeis aumentou em 30% o número de candidatos por vaga no último vestibular, comparado a 2019. "Os jovens perceberam que a contabilidade vai muito além dos estereótipos", explica a professora Sílvia Machado. "É uma profissão que combina análise de dados, estratégia empresarial e conhecimento jurídico."
O contador como tradutor em São Paulo
No escritório de Helena Santos, na região da Berrini, o perfil dos clientes reflete a diversidade empresarial da capital paulista. "Atendemos desde startups de tecnologia até indústrias tradicionais", conta, enquanto navega entre abas de planilhas e relatórios em seu computador. "O desafio é falar a língua de cada um."
Para Helena, a maior dificuldade não está nos números, mas na comunicação. "São Paulo tem empresários de todos os perfis: o jovem empreendedor que entende de algoritmos mas nunca ouviu falar em retenção tributária; o industrial experiente que conhece produção, mas se perde nas obrigações digitais."
No bairro do Ipiranga, Miguel Costa, 60, mantém um escritório que atende principalmente pequenos comércios locais. "Muitos clientes ainda trazem sacolas de documentos físicos e preferem reuniões presenciais", relata, mostrando a sala de atendimento onde café fresco está sempre disponível. "Em São Paulo, a tecnologia avança, mas as relações pessoais ainda contam muito."
Os desafios da cidade que nunca para
A complexidade fiscal de São Paulo é outro fator que mantém os escritórios de contabilidade em constante adaptação. Com uma das legislações municipais mais detalhadas do país, a cidade exige atenção redobrada dos profissionais.
"Só o ISS tem regras específicas para mais de 190 atividades diferentes", explica Denis Ribeiro, especialista tributário que presta consultoria para diversos escritórios contábeis na capital. "Sem falar nas constantes atualizações. Um contador paulistano precisa se atualizar praticamente toda semana."
A localização também influencia a especialização. Em Interlagos, o escritório de Fátima Rodrigues desenvolveu expertise no setor automotivo. "Estamos próximos ao autódromo e várias empresas ligadas ao segmento nos procuraram naturalmente", conta. "Hoje, conhecemos as particularidades fiscais desde oficinas até importadoras de autopeças."
Já na região da 25 de Março, Roberto Tanaka, descendente de japoneses, construiu uma clientela formada principalmente por importadores. "Começamos auxiliando imigrantes asiáticos que não dominavam a legislação brasileira", explica. "Hoje temos uma equipe multilíngue que entende não só de impostos, mas também de processos aduaneiros."
O preço dessa especialização se reflete nas mensalidades cobradas, que variam consideravelmente conforme a região e o perfil de atendimento. "Um MEI pode encontrar serviços básicos a partir de algumas centenas de reais, enquanto empresas maiores investem alguns milhares em consultorias contábeis mais completas", explica Luiza Ferreira, presidente da Associação dos Contabilistas da Zona Leste.
Para Marcelo Teixeira, que iniciamos acompanhando em sua rotina matinal, o maior valor está no tempo. "Nossos clientes não pagam apenas para termos os números em ordem, mas para poderem dormir tranquilos." Já passam das 19h quando ele fecha o notebook. Lá fora, São Paulo continua seu ritmo frenético, com milhões de transações sendo processadas a cada minuto – cada uma delas, em algum momento, passará pelas mãos atentas de profissionais como ele.
Antes de apagar as luzes do escritório, Marcelo observa a vista da avenida Paulista. "A contabilidade é como o sistema circulatório dessa cidade. Ninguém vê, mas sem ela, nada funciona."
https://tagcontabilidade.com.br/