
O encontro e o desencontro entre Gertrude Bell, uma inglesa ilustrada, e o escritor alemão Thomas Mann é pretexto para uma ficção de Valdívia S. Beauchamp que estabelece conexões entre o Brasil da era do café, a Alemanha e os países árabes de meados do século 20. O lugar das mulheres, o amor, a amizade, as relações econômicas, a paixão pelo saber, o desejo de independência e a democracia são temas que perpassam o romance. Ela já escreveu três livros inspirados na figura de Gertrude Bell. Valdívia autografa Kaffeekantate – Um entrelaçamento das vidas de Gertrude Bell e Thomas Mann hoje, às 18h, na sede da Associação Nacional de Escritores (SEPS Sul 707/907, Bloco F, Ed. Escritor Almeida Fischer). E, nesta entrevista, Valdívia fala sobre Kaffeekantate, título inspirado em uma peça de Bach para celebrar o café, o fascínio por Gerturde Bell e como a ficção permite explorar novos olhares sobre a história.
Qual foi o fascínio que sentiu pelos personagens de Gertrude Bell e Thomas Mann para escrever o romance sobre os dois?
Este é o terceiro livro que escrevo sobre Gertrude Bell. Foi uma mulher extraordinária. Ela foi uma inglesa que nasceu em New castle, vem de uma família cujo pai era senador e, o avô, era o barão do aço na Inglaterra. Eu cursava mestrado na New York University e a América estava na Guerra do Golfo. Fiquei curiosa de saber se tinha uma mulher que escrevia lá. E, assim, descobri Gerthude, ela morou no Iraque, se formou na primeira turma de história para mulheres de Oxford. Tinha um tio que trabalhava como diplomata no Iraque. Ela foi para lá, aprendeu árabe, traduziu livros de Rumi, poeta do século 14. Trabalhou com a equipe de Winston Churchill para democratizar o império Otomano.
E como Thomas Mann entrou na história?
Thomas Mann era sete anos mais novo do que ela, as famílias de ambos se conheciam. Faço ficção histórica. Acontece que Thomas Mann tinha uma relação com o Brasil. Um dos avôs dele era dono de uma fazenda de café em Paraty. Júlia, a mãe de Thomas Mann, nasceu no Brasil, em Paraty. Então, quis mexer com a cultura, a política, a mulher, o homem e com personagens brasileiras. Em meus livros, sempre faço uma ligação muito grande entre Brasil, Portugal, América e Europa. Aliás, Bach compôs uma peça musical para celebrar o café intitulada Kaffeekantate.
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Como essa história chega ao século 21?
Creio que essa história chega ao século 21 porque os árabes estão tomando o mundo. Lembrei dessa mulher, Júlia, a mãe de Thomas Mann, que saiu do Brasil para a Alemanha, nunca voltou para o Brasil. Então, Thomas Mann tinha um complexo de cor, sempre queria explicar de onde vinha a mãe. Eu quis mostrar essa experiência dramática no meu livro.
Como se dá a interação entre ficção e história nos seus livros anteriores?
O primeiro foi Stigma, saga por um novo mundo, que lancei em 2003, no Brasil, e em 2004, nos Estados Unidos. É uma ficção que conta, 300 anos depois da viagem, a história dos primeiros judeus sefarditas pernambucanos, que saíram do Recife para New Amsterdã, que se tornou Manhattan, distrito que deu origem a Nova York. O livro teve muita sorte, pois foi adotado pelo Manhattan College. O segundo A culpa a Napoleão é sobre a chegada de Dom João VI ao Brasil, mostra a infância e a vida dele no Brasil. My Mesopotamia notes, editado somente em inglês, fala do diário imenso que Gertrude deixou nunca havia sido publicado. É uma tremenda mulher. Outro livro foi Khatun, Gertrude Bell, mentora de Lawrence de Arábia, eles trabalharam juntos juntos no império Otomano. Ela ajuou a escolher o príncipe Faisal, primeiro rei do Iraque. Depois, Domesticália com duas pessoas portuguesas. É a história de pessoas que atuavam com trabalhos domésticos. E, finalmente, citaria Paranamirim, Base norte-americana nos trópicos, sobre os aliados do Brasil aos Estados Unidos, que foi publicado nas seis línguas que foram cenários da guerra.
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Severino Francisco
Subeditor do caderno de cultura e cronistaJornalista desde 1979, atuou como repórter, editor, articulista, crítico cultural e cronista no Jornal de Brasília e no Correio Brasiliense. Lecionou jornalismo no UniCEUB. É autor, entre outros, de Da poeira a eletricidade , história da música de

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