
Um filme híbrido de "tantas formas", como ressalta a diretora Fernanda Salgado, Ana, en passant abre a mostra competitiva do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, a partir de hoje, na tela do Cine Brasília (EQS 106/107).
Na primeira exibição no país, o título abraça a linguagem da animação, adotando múltiplas técnicas que incluem stop-motion, rotoscopia e colagens. Texturas e materiais diversificados geram as "pequenas inquietações visuais" no trajeto de luto de Ana, protagonista que teve por figura central a avó, recentemente morta, na trama.
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"Ana e Alice se encontrarão nesse momento de transformações, em Belo Horizonte", explica Fernanda que, sem ser ilustradora, desenhista ou animadora, buscou a parceria com a diretora de animação Camila Kater, a fim de integrar, junto com a diretora de arte Marcella Tamayo, o entusiasmo de "todas as propostas malucas exigidas pela animação que demanda um amor muito grande para ser concretizada", com ela diz.
"Nosso filme é narrativo, uma ficção, um drama, e é também um filme art house, super poético, e a poesia vem do diálogo entre várias técnicas de animação", observa Fernanda com histórico de curtas de ficção (em live action).
No estúdio mineiro Apiário, que Fernanda ajuda a comandar, há um histórico forte no ramo da animação, com direito à produção de Balanços e Milkshakes (curta de 2017 feito por Erick Ricco e Fernando Cunha), tido como uma das 100 melhores animações pela Abraccine. A linguagem abstrata do novo filme se completou na coprodução entre Brasil, Portugal (via Sardinha em Lata) e França (por meio da Midralgar).
Propostas de refinamento de roteiro retrabalhado desde 2012 deram corpo ao longa, cuja trilha sonora traz "sobreposições de texturas musicais e de vários ruídos", como pontua a diretora, e que teve por ingrediente a pura originalidade, tendo sido criado "do zero". Impulsionada entre 2018 e 2022, a produção Ana, en passant conta com Zezé Motta no elenco.
"Zezé chegou para uma personagem central, com toda sua beleza, potência e profundidade", diz a diretora. A mineira estreante Jéssica Pierina está no elenco, ao lado de Carlos Francisco, presença de encantamento na visão da cineasta. "Ele é maravilhoso, uma delicadeza de pessoa, numa gentileza que trouxe uma calma para a figura do carteiro (que interpreta), algo misterioso, mas também bastante central nas vidas da Ana, da Alice e da avó", destaca.
ENTREVISTA // Fernanda Salgado, diretora
Qual o norte estético e de conteúdo adotado pela animação?
Usamos técnicas mistas de animação, numa mistura em que se sobrepõem e conversam, dialogam. Foi tudo integrado à proposta narrativa. É uma história de duas mulheres negras tentando entender quem elas são num mundo nem sempre acolhedor aos corpos negros, às histórias e às memórias negras. Quisemos bagunçar um pouco a realidade e o universo desse mundo, visualmente. Não é transparente, (o filme) não vem completamente costuradinho. A textura se relaciona com as inquietações internas das personagens. Esteticamente, e sonoramente.
Quem é Alice e quem é Ana, as personagens do filme?
A Ana é uma jovem franco-brasileira, com avó e mãe nascidas em Belo Horizonte. Ela tem essa origem, mas sempre viveu em Paris e, quando a avó morre, a deixa algumas pistas. Em pecinhas de um quebra-cabeça, a Ana segue e chega até o Brasil pela primeira vez. Um pouco à deriva, sem ter onde se fincar de novo, com raízes perdidas, ela entrará na jornada em busca da avó, numa primeira camada, mas, numa segunda, ela busca por ela mesma por reconsiderar a sua configuração. Já a Alice é uma jovem brasileira, dançarina, e que tem peças da vida se movimentando, quase como placas tectônicas: está grávida, numa situação de risco, e que faz com que ela tenha que ficar de repouso e se compreender em transformações corpóreas.
Qual o tom predominante?
Nosso filme aposta muito nessa tonalidade poética. É uma poesia que está nas imagens, nos tempos, sons e diálogos. Nessa descoberta da cidade e das personagens mesmas, há um espaço interno e a trilha é feita pelo Metá Metá. Foi significativo trazer essas texturas, os diálogo entre as influências de matriz africana e afro-brasileiras, além do jazz. Há busca por memórias e por raízes e pelo futuro: é um filme que se coloca no espaço-tempo circular, espiral; por ser necessariamente negro, e por investir numa retomada do passado para entender o presente, para poder visualizar o futuro. Num constante movimento, o filme se localiza e localiza as personagens também.
Além do uso de 2D, como mais aplicam outras técnicas?
A técnica dominante foi a rotoscopia, processo em que a gente filmou, com atrizes, o filme inteiro, montou e desenhou por cima. O 2D desponta, pontualmente, quando chove, quando personagens choram. Aí tem o stop- -motion, que não é feito com bonecos, mas com materiais alternativos em objetos, enquanto personagens desvendam espaços do cenário, da ambientação. Por último, Camila Kater (diretora de animação) trouxe para partes específicas do filme, a animação termossensível (com papel das notas fiscais). Usamos nele calor, para fazer imagens e gerar cores. Em Montreal, Camila, no início desse ano, chegou para a gente pintar imagens, e minha filha pintou junto. Tivemos essa interação. Exploramos o experimental, com técnicas analógicas. No planejamento do filme, quisemos voltar para as origens.
Como percebe a visibilidade, em Brasília, de filmes detidos em negritude e na exposição de elementos afros?
Nunca estive no Festival. Nós, da Apiário (empresa) estivemos em Brasília com o filme do qual sou das produtoras: Aqui não entra luz, da Karol Maia (vencedor da melhor direção e do prêmio da Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro). Acho superelevante que o Festival abrace filmes de mulheres negras, dando respaldo para o cinema em curso. Temos que trazer as nossas perspectivas e as nossas visões de mundo, os nossos corpos, nossas histórias para uma tela que demarca espaço tão importante para o cinema brasileiro.
Como nota o acesso ao círculo de produção?
Quando começamos no desenvolvimento do filme, em 2018, de acordo com a Ancine (Agência Nacional do Cinema), havia um filme dirigido por uma mulher negra que teve distribuição comercial no Brasil. O primeiro é de Adélia Sampaio, na década de 1980. E, num segundo, houve o documentário O caso do homem errado. É uma história com muitas ausências. Naquela época, não tinha nenhum filme de animação (em longa) dirigido e distribuído por pessoas negras. O primeiro foi da Letícia Simões (A vida secreta de meus três homens). O cinema de animação no Brasil, só o cinema de animação, tem mais de 100 anos. Então, veja o peso dessa ausência. E o que a ausência diz em termos de acesso, de estrutura e de apoios financeiros.
Que expectativas acompanham teu filme?
Um dos grandes desejos ao fazer esse filme era especialmente de abrir portas e janelas, e ampliar as possibilidades do tipo de cinema que pode ser feito. Aposto num modo de contar histórias que faz parte do cinema negro contemporâneo internacional e, principalmente, brasileiro, que é o de apontar a câmera para os modos de vida negros. Então, contar histórias que tratem como as pessoas negras vivem e como elas encontram prazer, alegria ou imaginação. Trago a expectativa de que o filme tenha diálogos com o cinema de animação e com o cinema negro contemporâneo que conversa com Grace Passô, com Gabriel Martins e Karol Maia. Estamos com uma equipe majoritariamente composta por mulheres negras.
Algumas referências são perceptíveis?
O filme é híbrido de tantas formas, que traz referências de ficções, documentários e animações. Para essa história trago algo de A dupla vida de Veronique (de Kieslowski) — que é lindíssimo, superpoético, fantástico. Tivemos a animação de referência, em termos da rotoscopia, do Waking Life (de Richard Linklater). Do Brasil, A cidade onde envelheço, uma ficção de Marília Rocha, bonita, nos tempos, nas relações entre duas mulheres e entre elas e a cidade. Também nos norteamos com um filme da Petra Costa: Olmo e a gaivota.
Diversão e Arte
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