
Aos 63 anos, Claudia Ohana segue em atividade com a mesma disposição com a qual iniciou, aos 20. Com mais de quatro décadas de carreira, a atriz atravessa uma fase em que a experiência não significa acomodação, mas justamente o contrário: mais liberdade para experimentar, errar, mudar de registro e escolher os caminhos que ainda despertam curiosidade. Depois de concluir as gravações do longa A grande virada, comédia dirigida por Halder Gomes, ela acaba de estrear em São Paulo o musical Festa no Arraial. Entre cinema, televisão e teatro, a artista parece interessada menos em celebrar o que já fez do que em descobrir o que ainda pode fazer.
O palco do musical devolve à atriz uma combinação que a acompanha desde o início da trajetória e que marcou sua performance na personagem mais icônica da televisão: interpretação, canto e dança. Assim como ocorreu há 30 anos, quando deu vida à vampira Natasha, de Vamp (1991), a intensidade física do trabalho, longe de ser um obstáculo, funciona como combustível.
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"Sempre fui movida pelo desafio", afirma Claudia, que, recentemente, participou do The masked singer (2025) revivendo outra personagem histórica: Tieta do Agreste. Para ela, estar diante da plateia é uma experiência que reúne diferentes formas de expressão e exige preparo, disciplina e entrega: "Estar em cena, com energia, contando uma boa história, é o que me faz feliz".
Em Festa no Arraial, que une o clima das festas juninas com a comédia clássica Sonho de uma noite de verão, de William Shakespeare, a atriz encontra, ainda, a possibilidade de brincar com um território que conhece bem: a vilania, ponto alto da memorável Isabela Ferreto de A próxima vítima (1995). Agora, porém, por uma chave diferente. Tânia Flores é uma antagonista divertida, construída a partir do exagero e do humor. "Está sendo uma delícia", conta, observando que a comédia tem regras próprias: depende da escuta, do tempo, da parceria entre os intérpretes e, sobretudo, da resposta de quem está na plateia. "Isso faz com que cada apresentação seja diferente da outra. É um aprendizado constante e uma troca muito viva com o público", explica.
A disposição para se colocar novamente em situação de descoberta ajuda a explicar uma carreira marcada pela variedade. Ao longo de quatro décadas, Claudia passou por personagens que permanecem no imaginário da televisão brasileira, como a Tieta jovem (papel imortalizado por Betty Faria na novela homônima de 1989), a excêntrica Natasha, e a perversa Isabela. Mulheres muito diferentes entre si, mas que compartilham uma característica fundamental.
"O que une todas elas é a força. São mulheres que ocupam o espaço, que têm personalidade, que não passam despercebidas, que têm coragem de ser quem são", define a atriz carioca. Cada personagem deixou uma marca particular. "É impossível conviver tanto tempo com uma personagem e sair igual. Hoje, percebo que elas acompanharam o meu crescimento, tanto profissional quanto humano. Todas deixaram um pedacinho dentro de mim", reconhece a mãe de Dandara, de 42 anos.
Liberdade para envelhecer
Essa relação entre atriz e personagem parece funcionar também como uma espécie de espelho do próprio amadurecimento. Se a jovem Claudia que se lançou no cinema em Amor e traição (1979) precisava descobrir caminhos, a mulher na casa dos 60 parece mais interessada em percorrê-los sem a obrigação de saber exatamente onde vão terminar. Porém, essa liberdade não surgiu de uma hora para outra. Em uma profissão que historicamente impôs às mulheres padrões de beleza, comportamento e permanência, envelhecer pode significar, também, enfrentar uma sucessão de expectativas sobre aquilo que uma atriz deveria ou não fazer.
Mas Claudia escolheu não se deixar conduzir por elas. "Sempre procurei escutar mais a minha vontade do que as expectativas dos outros", revela a aquariana. Ela reconhece que nem sempre foi simples preservar essa autonomia, mas considera que a maturidade trouxe uma compreensão mais clara sobre os próprios desejos: "Com o tempo, fui aprendendo a reconhecer o que me entusiasma, o que me desafia e o que realmente vale a pena".
Nesse processo, aprendeu também o valor da recusa. "Dizer 'não' faz parte desse processo e é uma forma de respeitar quem eu sou", afirma. E a fala ganha ainda mais força quando aplicada à relação da atriz com o próprio envelhecimento. Claudia transformou a idade, muitas vezes tratada pela sociedade como um problema a ser escondido, em uma parte assumida de sua identidade. Não por uma espécie de resignação, mas pela compreensão de que o tempo também produz repertório, autonomia e potência.
"Foi um processo muito natural", explica a atriz, que, conforme envelheceu, passou a perceber com maior nitidez como o preconceito relacionado à idade continua presente, especialmente entre mulheres. "Em muitos momentos, parece que esperam que a gente esconda o tempo, quando, na verdade, ele faz parte da nossa história", pondera a musa que, no auge da juventude, estampou duas capas da extinta Playboy.
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Contudo, a avó de Martim (21) e Arto (14) não pretende transformar o envelhecimento em uma batalha contra o espelho. O cuidado consigo mesma permanece, mas muda de significado: "Prefiro olhar para tudo o que ganhei. Ganhei experiência, liberdade, autoconhecimento e uma relação muito mais generosa comigo mesma". A diferença está justamente na origem desse cuidado. "Claro que continuo me cuidando, gosto de me sentir bem, mas esse cuidado vem de um lugar de carinho", explica. A idade deixou de ser um peso e passou a integrar sua própria narrativa. "Tenho orgulho de cada fase que vivi e quero continuar vivendo muito!", celebra.
É nessa perspectiva que Maria Cláudia Silva Carneiro defende que envelhecer é um privilégio. Mais do que uma frase de efeito, a ideia se relaciona diretamente à possibilidade de continuar trabalhando, criando, desejando e ocupando espaços. Para ela, quanto mais mulheres maduras forem vistas vivendo plenamente, mais a sociedade poderá desmontar a noção de que existe um prazo de validade para a feminilidade. "Maturidade é sinônimo de experiência, liberdade e potência", resume. E acrescenta: "Quanto mais naturalizamos o envelhecimento e enxergamos mulheres maduras vivendo grandes histórias, apaixonando-se, trabalhando, criando e ocupando espaços, mais vamos desconstruir essa ideia de que existe prazo de validade. Existe vida, e ela pode ser muito bonita em todas as fases".
Sem medo do inesperado
A própria carreira funciona como argumento. Sua última personagem fixa em novelas, a Dora, de Vai na fé (2023), trouxe recentemente uma dimensão mais existencial à atriz, em uma personagem que lidava poeticamente com a finitude ao descobrir uma doença terminal e caminhar para a morte com uma leveza que impressionava. Tânia Flores, no musical, exige energia e comunicação imediata com a plateia. No cinema, A grande virada apresenta uma personagem que a coloca em um território novo: interpreta uma dominatrix, uma experiência inédita em sua trajetória.
Para Claudia, não há contradição entre essas experiências. Ao contrário, é justamente a possibilidade de transitar entre universos tão distintos que mantém seu interesse pela profissão. "Gosto desse movimento porque ele me mantém curiosa, desperta e sempre aprendendo", afirma.
A curiosidade, aliás, talvez seja a palavra que melhor defina a fase atual. A maturidade não trouxe apenas segurança, mas uma espécie de desprendimento. "Hoje, sinto que posso correr mais riscos. Não tenho medo de experimentar, de errar, de rir de mim mesma ou de aceitar personagens completamente diferentes", diz, frisando que não sente necessidade de controlar todos os resultados. "Muitas vezes, as melhores descobertas acontecem justamente quando a gente se permite brincar e estar disponível para o inesperado. Essa tranquilidade só a maturidade traz", avalia.
A mesma mulher que reivindica liberdade artística também estabelece limites para a exposição pública. A visibilidade é parte inevitável da profissão, e Claudia reconhece a importância do carinho recebido ao longo de décadas. Mas há uma vida que não precisa estar sob os refletores. Família, amigos, casa e silêncio compõem o espaço onde a atriz se recompõe. "Esse equilíbrio é importante porque é nele que eu recarrego as energias para voltar ao trabalho inteira, criativa e feliz", conta. Por isso, escolhe o que compartilhar e preserva aquilo que prefere deixar fora do alcance do público. É, também, uma forma de liberdade: compreender que nem tudo precisa virar personagem, entrevista ou notícia.
Quarenta e dois anos depois de sua estreia em novelas, em Amor com amor se paga (1984), Claudia Ohana olha para trás sem transformar o passado em ponto final. Se pudesse conversar com aquela jovem atriz que começava a construir uma carreira que atravessaria televisão, cinema e teatro, o conselho seria menos sobre sucesso e mais sobre percurso. "Diria para ela confiar mais em si mesma e aproveitar a caminhada. O mais importante é viver cada experiência por inteiro", afirma. Também recomendaria que aquela jovem não perdesse justamente aquilo que parece continuar movendo a mulher que ela se tornou: a curiosidade. "É ela que mantém uma atriz viva", sentencia. "Enquanto existir vontade de aprender, de se emocionar, de contar histórias e de se reinventar, sempre haverá novos caminhos", conclui.
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