
Filho de um garçom que migrou do Ceará para São Paulo nos anos 1950 e de uma telefonista, Vik Muniz cresceu na periferia paulistana em um ambiente no qual aprendeu a olhar para além da precariedade. Esse olhar virou uma marca e fez do artista um dos nomes da arte brasileira mais conhecidos internacionalmente. É o percurso percorrido para a construção desse olhar que a exposição Vik Muniz — A olho nu traz para o público no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) ao reunir 188 obras de todas as fases do artista, incluindo esculturas quase inéditas e algumas das imagens das famosas séries Chocolate, Lixo e Relicário.
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Vista por 600 mil pessoas até agora, a exposição teve início em Recife e já passou por Salvador e Rio de Janeiro. São 38 séries representadas na exposição, quase a totalidade feita por Vik Muniz ao longo de uma trajetória de quatro décadas. "Fizemos um recorte em torno de quatro a seis obras de cada série e trouxemos uma provocação com a ideia de, pela primeira vez, colocar as esculturas do lado das fotografias, que era uma coisa que ele nunca tinha feito", conta Daniel Rangel, curador da exposição.
O recorte foi pensado para colocar em evidência um conceito que Rangel tomou emprestado de Ansel Adams. "É um conceito que ele diz que tem o fotógrafo caçador e o fotógrafo agricultor. Ele chama de fotógrafo agricultor aquele que constrói a imagem, que semeia como se tivesse realmente plantando, e o processo da fotografia é só o último, mas tem todo o processo de construção dessa imagem", explica. Para o curador, Vik Muniz é um fotógrafo agricultor. "É aquele que realmente faz essas composições com tudo que a gente possa imaginar e transforma essas coisas em imagens incríveis."
Vik Muniz é, também, um arqueólogo de imagens. É com os materiais mais variados e inusitados que ele constrói as fotografias. Em 1997, recriou fotografias famosas com chocolate e antes, em 1989, reconstituiu de memória clássicos da imagem publicados na revista Life. Em 1996, ele levou para o papel retratos de crianças trabalhadoras de plantações de cana feitas com açúcar e em 2008, materiais recolhidos no aterro sanitário do Jardim Gramacho, no Rio de Janeiro, serviram de base para a série Lixo, feita em colaboração com catadores.
A questão social, aliás, é uma constante na produção de Vik. Quando o Museu Nacional do Rio de Janeiro pegou fogo, em setembro de 2018, o artista ficou consternado. A coleção da instituição era uma referência para ele. Vik acabou por fazer uma série inteira com as cinzas do museu e doou o valor das vendas para a compra de equipamentos que reproduzem os objetos queimados em 3D. "Tem várias séries em que você encontra isso, a série de Sucata, a série de Lixo, a série do Museu Nacional, a série das Crianças de Açúcar, que foram questões sociais com as quais ele conviveu. São séries movidas a partir de uma preocupação social", diz o curador.
Outro viés das obras de Vik é a própria história da arte. Há muitas referências e diálogos nesse sentido, especialmente quando o artista reproduz imagens famosas, como a Monalisa, ou quando investiga os limites da representação ao utilizar materiais diversos para compor os retratos e paisagens. "Ele trabalha a partir de imagens para poder falar não da própria imagem, mas do processo de produção", avalia Rangel. "E o processo de construção dele entra no aspecto da história da arte e faz com que o espectador fique fruindo essa obra por um tempo. É nessa fruição que a arte acontece. Não é a imagem em si, mas é a relação entre ela e o significado, a composição. É a Mona Lisa? É pasta de amendoim, é geleia? Você começa a desconstruir." É nos questionamentos, explica o curador, que está a magia e a riqueza da obra de Vik Muniz.
Muitas vezes descrito como um ilusionista, o artista aprimorou o processo criativo ao longo das décadas. Dominou proporções, estudou escalas e dimensões, desenvolveu técnicas de assemblage muito precisas e criou um método capaz de construir uma ilusão com materiais, muitas vezes, simples e descartáveis, que são desmanchados após o registro. "São imagens que parecem existir só nos nossos olhos e isso cria uma tensão entre o que a gente reconhece na imagem aquilo que ela realmente é. Em certa medida, isso transforma a percepção do espectador em uma parte fundamental da obra", aponta Rangel, que cita o ilusionista Harry Houdini, famoso no início do século 20 pelos shows de mágica. A diferença da obra de Vik Muniz, no entanto, é que não é um truque, porque o processo está explícito e a ilusão se desfaz facilmente diante da atenção e da observação do público.
Vik Muniz - A olho nu
- Curadoria: Daniel Rangel
- Visitação até 31 de janeiro, de terça a domingo, das 9h às 21h, no Centro Cultural Banco do Brasil Brasília (SCES Trecho 2 Lote 22).
- Entrada gratuita, mediante retirada de ingressos no site do CCBB Brasília.
- Classificação indicativa livre.
Diversão e Arte
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