
Sem surpresas, o Banco Central anunciou, ontem, o quarto corte consecutivo de 0,25 ponto percentual na taxa básica de juros da economia (Selic), para 14% ao ano, em decisão unânime. No comunicado divulgado ao final da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), o BC procurou manter o tom mais cauteloso e não sinalizou se haverá um novo corte na próxima reunião do comitê, em setembro.
A decisão de corte de juros foi unânime entre os sete diretores do colegiado liderado pelo presidente do BC, Gabriel Galípolo.
Apesar desaceleração das pressões inflacionárias recentes e da perspectiva de queda de preço nos dados de curto prazo, o Copom destacou, no comunicado, que houve aumento das incertezas no cenário externo, em grande parte, devido às indefinições da política monetária de economias avançadas e pelo conflito no Oriente Médio, "provocando volatilidade nos preços de ativos e commodities", mas não mencionou o fenômeno climático El Niño, que deve pressionar preços daqui para frente. "Em decorrência da dinâmica dos riscos associados à evolução dos preços, o Comitê reafirma que a magnitude total do ciclo de calibração será estabelecida à luz de novas informações visando assegurar a convergência da inflação à meta", destacou o documento, que também incluiu aumento da preocupação com a piora do quadro fiscal.
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Entidades do setor produtivo elogiaram a medida, mas destacaram que o tamanho do corte ainda é insuficiente para ajudar na recuperação da atividade industrial, que enfrenta dificuldades para investir devido ao elevado custo do crédito. "Não há justificativa compreensível para a manutenção da taxa de juros em um nível tão alto. A decisão do Banco Central piora a perspectiva para a indústria, já tão prejudicada pelas incertezas no cenário externo. Além disso, o crédito caro compromete gravemente a renda das famílias, que já apresentam níveis recordes de endividamento e inadimplência", afirma Ricardo Alban, presidente da A Confederação Nacional da Indústria (CNI), em nota da entidade.
Com essa redução da Selic, os juros reais — descontada a inflação — o Brasil segue na liderança do ranking mundial de 40 economias listadas, com taxa real de 9,30% anuais, à frente de Rússia (9,09%) e de Colômbia (6,16%), conforme levantamento da MoneYou e Lev Intelligence. Enquanto isso, o Japão, na lanterna do ranking, apresenta juros reais negativos de 1,42% anuais.
Gastos públicos
Na avaliação de especialistas, apesar de a decisão não surpreender o mercado, o comunicado do Copom foi menos confuso do que os anteriores da diretoria formada só por integrantes indicados pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que vinham criando ruídos no mercado a cada nova reunião do Comitê. A política expansionista do atual governo está de vento em popa, com gastos adicionais acima de R$ 280 bilhões apenas neste ano, que ajudou a acelerar o ritmo de crescimento da dívida pública bruta, em junho, beirou os 82% do Produto Interno Bruto (PIB), patamar preocupante para um país emergente com juros básicos de dois dígitos.
O diretor da Instituição Fiscal Independente (IFI), Alexandre Andrade, mostrou preocupação com a elevação de gastos do governo. Ele lembrou que o aumento segue em ritmo acelerado tanto que o estouro da regra de ouro – que impede que o governo evite se endividar para cobrir gastos correntes – neste ano pode chegar a R$ 288 bilhões, acima dos R$ 185 bilhões já autorizados pelo Congresso. "A regra de ouro não vem sendo respeitada desde 2019 e isso é preocupante, porque contribuiu para a deterioração das contas públicas", destacou Andrade.
O economista e ex-diretor do Banco Central Carlos Thadeu de Freitas Gomes ressaltou que, devido ao desequilíbrio das contas públicas, o mercado continua exigindo um prêmio de risco relevante para financiar a dívida pública, refletindo dúvidas sobre o equilíbrio fiscal, o ambiente eleitoral e os riscos externos. "O Banco Central está em uma sinuca de bico, porque essa redução de juros continua deixando os juros elevados, apesar de o ambiente de curto prazo ser deflacionário", disse ele, em referência à recente desaceleração dos indicadores de inflação, devido à queda dos preços dos alimentos. "Estamos em um ambiente deflacionário, mas, se o governo não fizer um ajuste fiscal, o Banco Central, se quiser continuar independente, não vai ter espaço para reduzir os juros, porque o governo está gastando muito e não ajuda na política fiscal", alertou.
Luis Otávio Leal, economista-chefe da G5 Partners, também recordou que, depois dos ruídos da reunião do Copom de junho, o Banco Central resolveu ser mais sucinto no comunicado e evitar contratempos, tanto que o número de palavras caiu de 847 para 654, pelas contas dele, e, ao mesmo tempo, deu sinais de que pode pausar o ciclo de corte de juros a partir de setembro, apesar de parte do mercado ainda esperar uma nova redução da Selic no próximo mês. “Olhando para frente, o BCB deixou as portas abertas para um novo corte de juros na reunião de setembro, ao dizer que vai decidir ‘à luz de novas informações’, mas ao mesmo tempo, ao manter o balanço de riscos assimétrico para cima, mostra que não seria nenhum surpresa que houvesse uma pausa no próximo Copom”, afirmou Leal que aposta na manutenção dos juros em 14% até o fim do ano. Segundo ele, atualmente, o mercado dá 55% de chance de um novo corte de 0,25 ponto percentual na Selic em setembro.
Rafael Cardoso, economista-chefe do Banco Daycoval, ressaltou que o Copom manteve as portas abertas para novos cortes, mas adotou tom mais duro e reduziu a probabilidade de queda em setembro. “As justificativas são várias para deixar essa opcionalidade na mesa. No entanto, ao olhar para a próxima reunião — e isso já estava presente na comunicação anterior —, o que se pode dizer atualmente é que a probabilidade de queda em setembro existe, mas é substancialmente menor do que aquela observada em agosto. O diagnóstico é muito parecido com o apresentado anteriormente pelo Banco Central, com poucas alterações: um cenário internacional ainda incerto; uma atividade que modera, mas com o mercado de trabalho aquecido; e uma inflação que desacelerou, mas permanece acima da meta”, explicou.
Helena Veronese, economista-chefe da B. Side Investimentos, avaliou que o Copom manteve uma postura levemente cautelosa ao reforçar riscos para a inflação e a desancoragem das expectativas, mas trouxe algumas mudanças relevantes em relação ao comunicado anterior. Ela destacou que ao justificar o corte de 0,25 ponto percentual “o Comitê não deixou claro um compromisso de continuidade do ciclo de flexibilização”. “Na prática, as próximas decisões continuarão condicionadas à evolução da atividade, da inflação, das expectativas e do cenário externo. Nossa avaliação é que o comunicado mantém aberta a possibilidade de novos cortes, mas sem antecipar seu ritmo ou sua extensão”, afirmou.
No comunicado, o Banco Central revisou de 5,2% para 5,1% a previsão para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que mede a inflação oficial deste ano, ainda acima do teto da meta, de 4,50%. Para 2027, o BC elevou de 3,7% para 3,8% a projeção para o IPCA e, além disso, atualizou o horizonte relevante, que passou a ser o primeiro trimestre de 2028, para o qual projeta uma inflação de 3,2%, ainda acima do centro da meta, de 3%.
Gustavo Cruz, estrategista-chefe da Sincra Investimentos, considerou que o núcleo comunicado do Copom segue parecido com os anteriores, sem sinais claros do que o Comitê vai fazer nas próximas reuniões. “Isso é o que, particularmente, temos visto nos bancos centrais mundo afora, e o Copom, deixou as portas abertas, tanto para, eventualmente, subir os juros, se as coisas piorarem, quanto para continuar cortando a Selic, se as coisas melhorarem, que é o que eles querem mesmo. Então, eu diria que essa é a grande mensagem desse Copom”, afirmou.

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