
Pânico, apreensão, certeza da morte iminente. O Correio entrevistou quatro brasileiros que moram na região do terremoto — três deles em Bangcoc, capital da Tailândia, e outra em Chiang Mai, não muito distante da fronteira com Mianmar. Na tarde desta sexta-feira (28/03), madrugada de hoje, pelo horário tailandês, eles ainda tentavam se recuperar do susto. Durante o tremor de 7,7 graus na escala Richeter (aberta, raramente chega 9), uma empresária paulistana gravou uma mensagem de adeus à família, enquanto descia os 35 andares de seu prédio pelas escadas. Enquanto saía de casa, uma estudante corria e rezava pela própria vida.
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Horas antes de embarcar para São Paulo, a pedagoga e educadora Mirella Aires, 44 anos, estava com o marido e a filha, de 10, no shopping Central Plaza Bangna, no centro de Bangcoc, quando ocorreu o terremoto, às 13h20 de ontem (hora da Tailândia).
"Achei que fosse uma tontura ou um mal-estar. Falei para o meu marido para sairmos rápido do shopping, porque talvez o prédio estivesse tremendo ou caindo. Estávamos no quarto andar do estacionamento. Quando entramos no carro, ele começou a balançar de um lado para o outro. Pensamos que era um problema no veículo, mas vimos que o prédio também sacudia. Percebemos tratar-se de um terremoto", contou, à 1h50 de hoje (15h50 de ontem em Brasília), dentro do avião, a caminho do Brasil.
Na rua, Mirella e a família, que moram na Tailândia desde julho de 2024, viram muitas pessoas desesperadas, correndo com os celulares nas mãos. "Os guardas direcionavam as pessoas para a fora dos prédios. Crianças foram dispensadas das escolas, e as obras, paralisadas."
A também paulistana Estela dos Santos Souza, 33, vive em Bangcoc há sete meses. Por telefone, a empresária relatou que mora no 35º andar. "No 40º andar, temos uma piscina com borda infinita. Eu trabalhava no meu quarto e o meu namorado, na sala. Por volta das 13h20 (hora local), pensei que estivesse com tontura e cheguei a imaginar que fosse uma labirintite. Aí senti que era o prédio que tremia", afirmou.
Quando correu até a sala, Estela viu o namorado, o francês Benjamin Maury, "de pé e com os olhos arregalados". "Ele estava desesperado e repetia: 'Vamos embora daqui!'. Meu namorado ouviu gritos no corredor e viu a persiana bater. Peguei o celular e saímos, com a roupa do corpo; ele, descalço. Todos corriam. A sensação era de que prédio cairia e a gente morreria. Descemos os 35 andares em 10 minutos. Na metade do caminho, o edifício parou de balançar", descreveu. Fora do prédio, Estela e Benjamin passaram sob uma "minicachoeira". "Olhamos para cima e vimos que a piscina tinha rachado e caía água do 40º andar."
Treinamento
O agente de viagens Wendell Oliveira, 34, natural do Rio de Janeiro, estava no 22° andar de um prédio quando os tremores começaram. "Senti as coisas balançando", disse. Segundo Oliveira, que mora na Tailândia há 10 anos, a população ficou bastante assustada. "O país não tem histórico de terremoto, então, diferentemente de nações como Japão ou Filipinas, famosos pelos terremotos, aqui ninguém tem treinamento para essas situações e o pessoal ficou bem impactado."
"Está tudo bem por aqui, na medida do possível. Como o epicentro foi em Mianmar, país vizinho, sentimos o tremor daqui. À exceção de um prédio em construção, que infelizmente caiu, não houve muitos danos em Bangcoc. Muitos edifícios foram esvaziados e o metrô foi fechado por segurança. A verdadeira tragédia ocorreu em Mianmar, mas lá é uma ditadura, então, as informações saem com menos transparência", acrescentou.
Samara Cesar, 30, estava no segundo andar de sua casa, em Chiang Mai, no norte da Tailândia, a três horas da fronteira com Mianmar. "O abalo pegou todo mundo de surpresa, a maioria ficou meio em choque ou sem reação. O que fizemos foi sair de casa e ir para a rua. A sensação era de que tudo iria desabar. Corri, rezando para dar tempo de sair."
Nascida em Cabo Frio e moradora da Tailândia desde 2022, a estudante e nômade digital afirmou que a população espera pelo resgate dos desaparecidos. "Nossa mente e nossos pensamentos estão com Mianmar e com os trabalhadores procurados sob os escombros de Bangcoc."
O Itamaraty divulgou nota na qual informou que não tinha notícias sobre brasileiros mortos ou feridos. O Correio apurou que o embaixador do Brasil em Mianmar, Gustavo Rocha de Menezes, e os demais funcionários da representação não sofreram maiores impactos com o terremoto.
Eu acho
"Foi bem desesperador e triste. Enquanto estávamos no carro, indo para casa, vimos vários prédios com avarias e vidros quebrados. Um dos prédios tinha as vidraças estouradas, na parte mais central e turística de Bangcoc. Moro em Samut Prakan, um distrito próximo a Bangoc, onde o tremor foi menos intenso. Recebemos alertas do governo sobre a possibilidade de réplicas. Todo mundo ficou na rua. Operários reunidos nos parques." Mirella Aires, 44 anos, pedagoga e educadora paulista, mora em Bangcoc desde julho de 2024
*Colaborou Renata Giraldi
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