TRAGÉDIA

Por que é tão difícil conseguir informações em Mianmar, país em guerra civil onde terremoto deixou milhares de mortos

É num cenário de instabilidade que o terremoto atinge Mianmar, deixando milhares de mortos num país que vive guerra há quatro anos após um golpe militar

Ponte Ava desabou em Mianmar -  (crédito: BBC)
Ponte Ava desabou em Mianmar - (crédito: BBC)

Mais de 24 horas após um terremoto de magnitude 7,7 atingir Mianmar e deixar mais de 1,6 mil mortos, ainda é difícil obter um quadro preciso da situação no local, especialmente nas áreas mais afetadas.

Neste sábado (29/3), autoridades de Mianmar emitiram um novo alerta na cidade de Mandalay, uma das mais atingidas, sobre um possível novo terremoto na região até a madrugada de domingo no horário local (noite de sábado de Brasil).

Os tremores, com epicentro em Sagaing, no centro do país, também atingiram a Tailândia.

Mianmar vive uma guerra civil após um golpe militar em 2021. A repressão a manifestantes contrários ao novo regime foram o ponto de partida para a escalada da violência no país do sudeste asiático.

Diversos grupos insurgentes atuam no país desde os anos 1950, quando Mianmar conquistou a independência do Reino Unido. Muitos deles são armados e radicalizaram sua atuação tentando tomar o poder e derrubar o atual regime militar.

A região que é o epicentro do terremoto é um reduto rebelde. Há poucos meses, foi palco de intensos combates entre os rebeldes e os militares.

A segunda maior cidade do país, Mandalay, que abriga 1,5 milhão de pessoas, tem sido cenário de confrontos violentos entre as forças de resistência e o exército.

Segundo a agência de refugiados das Nações Unidas (Acnur), mais de 4 milhões de pessoas já tiveram que deixar suas casas no país e há 1,5 milhão de refugiados.

É nesse cenário de instabilidade que o terremoto atinge Mianmar. Após os quatro anos de guerra civil, há uma grave crise alimentar e uma economia em declínio.

Para conseguir as informações, a BBC está trabalhando em estreita colaboração com os colegas do serviço birmanês da BBC (birmanês é a língua falada em Mianmar, país conhecido até os anos 1990 como Birmânia).

Nem todos os jornalistas do serviço birmanês da BBC estão baseados em Mianmar, devido às dificuldades enfrentadas pelos repórteres no país.

A repórter Oliver Slow foi jornalista em Mianmar antes do golpe militar de 2021 e explica que, mesmo antes da guerra, "já era um lugar desafiador para trabalhar".

"Mas, desde então, a situação só piorou, em meio a conflitos generalizados, crise econômica e repressão à mídia e a vozes dissidentes", diz Slow.

A internet é fortemente restrita no país, com velocidades já lentas antes mesmo do terremoto ter destruído grande parte da infraestrutura do país – cuja escala da destruição ainda não está clara.

Mapa mostra epicentro de terremoto
BBC

Os militares – liderados pelo general sênior Min Aung Hlaing, que enfrenta um mandado de prisão do Tribunal Penal Internacional – também foram acusados de usar os bloqueios da internet como arma para sufocar a resistência generalizada ao regime militar.

A segurança dos jornalistas também é uma preocupação, com repórteres enfrentando risco de tortura, prisão ou assassinato, segundo a organização Repórteres Sem Fronteiras.

De acordo com a RSF, pelo menos quatro jornalistas foram mortos pelos militares desde o golpe, enquanto 58 repórteres estão atualmente presos.

Jornalistas estrangeiros também raramente são autorizados a entrar no país devido à falta de liberdade de imprensa.

Uma investigação de dados da BBC no final do ano passado revelou que os militares agora controlam menos de um quarto do país.

As poucas informações que chegam do país sugerem que um hospital na capital, Naypyidaw – onde fica o governo militar – tem recebido massivamente as vítimas.

As poucas imagens disponíveis mostram um cenário de destruição, com estradas rachadas e edifícios desmoronados.

"Centenas de pessoas feridas estão chegando... mas o prédio da emergência aqui também desabou", disseram agentes de segurança do hospital à agência AFP.

Ataques continuam mesmo após terremoto

Ponte caída em rio
EPA-EFE/REX/Shutterstock
Ponte Ava desabou em Mianmar

Mesmo após o terremoto, os militares de Mianmar continuam realizando ataques aéreos em áreas declaradas em estado de emergência.

A Força de Defesa do Povo – uma rede de grupos civis armados pró-democracia – relatou ataques aéreos no município de Chang-U, em Sagaing, próximo ao epicentro do devastador terremoto.

David Eubank, do grupo de resistência humanitária Free Burma Rangers, disse à BBC que "desde o terremoto, houve três ataques aéreos no sul do estado de Shan e em Kareni na noite passada. Então, eles não estão parando."

O órgão das Nações Unidas que investiga violações de direitos humanos no país alertou que os militares estão cometendo crimes de guerra e crimes contra a humanidade e contra seu próprio povo.

No ar, os militares têm vantagem. Utilizando caças fabricados na Rússia e na China, eles têm realizado ataques aéreos devastadores em todo o país.

Eles já atingiram escolas, monastérios, igrejas e hospitais.

A ONU descreveu os contínuos ataques aéreos militares como "completamente ultrajantes e inaceitáveis".

Tom Andrews, relator especial da ONU para os Direitos Humanos, disse à BBC que é "simplesmente inacreditável" que os militares continuem a "lançar bombas enquanto se tenta resgatar pessoas" após o devastador terremoto.

Ele pediu ao regime militar que cesse todas as operações militares. "Qualquer pessoa que tenha influência sobre os militares precisa aumentar a pressão e deixar muito claro que isso não é aceitável", afirmou.

Andrews também alertou que os militares de Mianmar têm um histórico de negar ajuda a áreas onde grupos de resistência estão ativos.

Em operações de socorro anteriores, ele afirmou que os militares bloquearam a ajuda e prenderam trabalhadores humanitários.

"Receio que este desastre não será diferente", disse ele.

"A junta não revela a verdade e também tem o hábito de bloquear a ajuda humanitária para os locais onde ela é mais necessária. Eles usam essa ajuda como arma. Enviam para as áreas que controlam e a negam para aquelas que não controlam."

O braço armado do Governo de Unidade Nacional de Mianmar (NUG) – formado por grupos que se opõem à junta militar no poder desde 2021 – anunciou que não continuará os combates e, em vez disso, implementará um cessar-fogo de duas semanas para permitir que a ajuda tão necessária chegue às áreas afetadas pelo terremoto de ontem.

A Força de Defesa do Povo (PDF) declarou que, nas áreas sob seu controle, trabalhará com a ONU e agências internacionais de ajuda humanitária "para garantir a segurança, o transporte e a criação de acampamentos temporários de resgate e atendimento médico".

Como Mianmar chegou a essa situação?

Prédios tombados em Mianmar
EPA-EFE/REX/Shutterstock
Poucas informações têm chegado de Mianmar

O país tem vivido décadas de instabilidade e regime militar desde sua independência do Reino Unido em 1948.

Em 2011, parecia estar se afastando desse cenário e eleições livres foram realizadas quatro anos depois, nas quais Aung San Suu Kyi saiu vitoriosa.

No entanto, as esperanças democráticas foram frustradas em 2021, quando ela e seu governo foram depostos em um golpe liderado pelo general Min Aung Hlaing.

Ele prendeu e acusou Suu Kyi e outros membros do governo, alegando fraude eleitoral generalizada em uma votação realizada meses antes, na qual seu partido, a Liga Nacional pela Democracia, obteve mais de 80% dos votos.

O golpe provocou enormes protestos, com milhares de pessoas indo às ruas diariamente para exigir a restauração do governo civil. A violência rapidamente escalou entre os civis e os militares, que responderam com brutalidade, usando gás lacrimogêneo e balas de borracha contra as multidões.

Grupos de direitos humanos acreditam que centenas de pessoas morreram e milhares ficaram feridas durante a repressão.

O que começou como uma campanha de desobediência civil logo evoluiu para uma insurgência generalizada, envolvendo grupos pró-democracia e rebeldes étnicos – o que acabou levando a uma guerra civil em grande escala.

Quatro anos depois, os combates continuam violentos entre os militares e os grupos de resistência armada.

Os militares sofreram grandes perdas e já não controlam vastas partes do país. Além disso, cresce o descontentamento com o general Min Aung Hlaing dentro das próprias fileiras militares, à medida que mais soldados desertam.

A guerra deixou milhões de pessoas vivendo com medo e insegurança constantes – com pouco acesso a necessidades básicas, como atendimento médico e alimentos, segundo grupos de direitos humanos.

A insegurança alimentar atingiu "níveis sem precedentes", segundo o Programa Mundial de Alimentos, que também destacou que a rápida inflação tornou os alimentos inacessíveis para muitas pessoas.

Nesta semana, a ONU anunciou que cortará a ajuda a mais de um milhão de pessoas em Mianmar a partir do próximo mês, citando a falta de financiamento global.

Isso ocorre poucos meses após mais de 200 pessoas morrerem devido ao Tufão Yagi, que provocou inundações severas e deslizamentos de terra em Mianmar, destruindo centenas de milhares de hectares de plantações

BBC
BBC Geral
postado em 29/03/2025 15:57 / atualizado em 29/03/2025 18:38
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