
Atenção: essa reportagem traz relatos sensíveis
Na Faixa de Gaza, o perigo já não se limita ao que cai do céu, mas envolve também o que rasteja silenciosamente debaixo da terra.
Apenas 10 dias antes do seu casamento, Amani Abu Salmiya está sentada dentro de uma tenda no acampamento do Clube Desportivo, no sul de Gaza, enquanto inspeciona o que restou do enxoval de casamento: uma coleção de roupas, lençóis e outros artigos nupciais, que levou meses para preparar.
"Eu estava mostrando o enxoval para minhas amigas, tudo estava pronto", conta ela ao Serviço Árabe da BBC.
"No dia seguinte, ouvi o barulho de ratos. E, quando fui verificar, encontrei a maioria das roupas rasgadas e comidas."
"A perda não foi apenas material, mas também emocional. Trabalhei muito para preparar esse enxoval. E tudo era caro... Mesmo assim, nada foi poupado. Tínhamos planejado levar os itens para minha casa [a tenda] para que a família do noivo pudesse vê-los, mas o que aconteceu foi um choque enorme."
Apesar do cessar-fogo de outubro de 2025, quase oito em cada dez dos 2,2 milhões de habitantes de Gaza permanecem em campos de deslocados, segundo as Nações Unidas.
Muitas casas foram destruídas, e cerca de metade do território permanece sob controle militar israelense.
As tendas deveriam oferecer refúgio temporário, mas o próprio terreno onde estão instaladas tornou-se uma fonte de ameaça diária, com uma proliferação sem precedentes de roedores e insetos em um ambiente deteriorado e superlotado.
"Há pouco tempo, um rato apareceu", conta Amani.
"Passamos a noite toda colocando tijolos e madeira, mas os ratos ainda conseguem entrar."
Deslocado da cidade de Beit Lahia, perto da fronteira com Israel, Basel Al Dahnoun sofre de insuficiência renal e diabetes.
Por isso, não sentiu o dedo do pé sendo roído por um rato até que sua esposa o acordou, ao notar sangue escorrendo do pé dele.
"Um pé diabético precisa de cuidados, mas as condições são extremamente difíceis", disse o homem de 47 anos à BBC.
"Ratos e mosquitos estão por toda parte, e o perigo aumenta com a chegada do verão."
"As condições nas tendas são insuportáveis. Roedores e mosquitos nos atacam constantemente. E meus filhos passam as noites aterrorizados, observando centopeias rastejando por aí."
"A situação é perigosa, porque esses roedores podem transmitir doenças graves. Eu sofro de alergias severas e tenho um sistema imunológico muito fraco", completa ele.
No início de abril, o ministro da Saúde palestino, Majed Abu Ramadan, alertou que a presença generalizada de roedores na Faixa de Gaza causa riscos crescentes à saúde.
Ele pediu à Organização Mundial da Saúde (OMS) que fornecesse urgentemente materiais para o controle de roedores.
O acúmulo de lixo e detritos facilitou a disseminação de ratos e camundongos, acrescentou o ministro, o que aumenta a probabilidade de propagação de doenças graves por meio de mordidas, urina, fezes e parasitas, como pulgas e carrapatos.
Entre as doenças mais comuns estão:
- Febre hemorrágica
- Peste
- Febre de mordida de rato
- Infecções intestinais causadas por bactérias como a Salmonella
E os roedores não são o único risco: com a aproximação do verão, seres ainda mais perigosos, como cobras e escorpiões, foram avistados.
E, no Campo de Chalés, no centro da Cidade de Gaza, uma infecção provavelmente causada pela picada de um inseto não identificado está elevando a temperatura de uma das meninas que vive ali.
"Os médicos me disseram que é um vírus e que pode ficar com ela por cerca de 30 dias", diz a mãe da menina, Um Ramez.
"Ela está nessa condição há 17 dias, por misericórdia de Deus. Dou a ela remédio apenas para aliviar a dor, mas ela continua dormindo com febre alta."
Dias antes de apresentar sintomas, a menina acordou gritando, relata Ramez.
"Quando acordamos, descobrimos que o inseto era muito grande, do tamanho de uma bolsa grande."
"Passamos a noite inteira com medo. Não temos nem lanterna para ver o que pode estar ao nosso redor ou dormindo conosco."
"O medo nos acompanha 24 horas por dia. Nem mesmo dentro da barraca há segurança. A barraca está rasgada e esfarrapada. E toda vez que a costuramos, ela não aguenta."
'Ameaça real'
O médico Mohammed Abu Afesh, diretor da Sociedade Palestina de Assistência Médica na Faixa de Gaza, disse à BBC que a situação está piorando.
"A proliferação de roedores tornou-se um grande problema e uma ameaça real à saúde pública, especialmente porque eles chegam aos alimentos e à água dentro das tendas", explica ele.
"De fato, casos de ferimentos foram registrados e chegaram a hospitais e centros de saúde. Embora ainda não haja estatísticas precisas, há um claro aumento no número de casos, o que alerta para um desastre se uma intervenção rápida não ocorrer."
"Também notamos o aparecimento de tipos de roedores que não eram comuns antes, e em grande número, o que representa uma ameaça real e pode até levar a ataques a alguns campos."
O controle de pragas é quase inexistente, observa Afesh.
A destruição da infraestrutura, a capacidade limitada das autoridades locais de formar equipes de campo eficazes e a proibição da entrada de pesticidas em Gaza criaram um ambiente ideal para a proliferação de roedores — e o surgimento de epidemias.
Ele pede uma intervenção urgente de organismos internacionais e uma pressão para permitir a entrada de inseticidas e iscas tóxicas, bem como o combustível necessário para operar os serviços de saneamento e desinfecção.
Por enquanto, alguns dos homens mais jovens estão tentando usar métodos como pulverizar pesticidas agrícolas, colocar armadilhas simples dentro das tendas e remover o lixo das áreas residenciais.
"Tentamos combater roedores e insetos com materiais simples", conta Mahmoud Al-Amawi, criador de conteúdo para mídias sociais que vive na Cidade de Gaza.
"Melhor alguma coisa do que nada", constata ele.
A guerra deixou Gaza coberta por mais de 68 milhões de toneladas de entulho e detritos, incluindo quatro milhões de toneladas de resíduos perigosos, segundo a ONU.
Esse volume todo chega a ser 13 vezes mais pesado ??que a maior pirâmide do Egito.
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