ORIENTE MÉDIO

Acordo EUA-Irã deixa perguntas sobre o Líbano sem respostas

Sob pressão dos Estados Unidos, autoridades libanesas negociaram com Israel para alcançar um acordo separado que encerre as hostilidades

Um homem inspeciona sua casa destruída ao retornar para sua aldeia natal de Tibnin, no sul do Líbano, em 15 de junho de 2026   -  (crédito: MAHMOUD ZAYYAT / AFP)
Um homem inspeciona sua casa destruída ao retornar para sua aldeia natal de Tibnin, no sul do Líbano, em 15 de junho de 2026 - (crédito: MAHMOUD ZAYYAT / AFP)

O acordo entre Estados Unidos e Irã para acabar com a guerra entre Israel e Hezbollah deixa muitas questões sobre o Líbano sem respostas, ao não mencionar a retirada israelense do território do país vizinho nem encerrar o apoio de Teerã ao grupo xiita.

Sob pressão dos Estados Unidos, autoridades libanesas negociaram com Israel para alcançar um acordo separado que encerre as hostilidades, mas Beirute parece ter ficado de lado com o anúncio sobre o conflito regional. 

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O CORREIO BRAZILIENSE NOGoogle Discover IconGoogle Discover SIGA O CB NOGoogle Discover IconGoogle Discover

A seguir, um olhar sobre o acordo e as dúvidas que provoca no Líbano:

O que envolve o acordo?

Os detalhes do acordo para encerrar a guerra iniciada em 28 de fevereiro no Oriente Médio não foram divulgados, mas Irã e Paquistão, país que atuou como mediador entre as partes, anunciaram que o pacto inclui o Líbano.

O Hezbollah arrastou o Líbano para o conflito regional em 2 de março ao lançar foguetes contra Israel para vingar a morte do então líder supremo iraniano, Ali Khamenei, nos ataques israelense-americanos que desencadearam as hostilidades.

Israel respondeu com bombardeios e uma invasão terrestre que, segundo o Líbano, matou mais de 3.700 pessoas e provocou o deslocamento de mais de um milhão de moradores. 

Uma fonte oficial disse à AFP que "o Líbano não foi informado sobre os termos do acordo, nem a duração do cessar-fogo".

O presidente do Parlamento libanês, Nabih Berri, aliado do Hezbollah, agradeceu a Washington e Teerã pela "insistência em incluir (...) uma cláusula essencial e vinculante sobre o fim da agressão israelense contra todo o Líbano".

O Hezbollah não reivindicou, na segunda-feira, nenhum novo ataque contra Israel.

Retirada israelense?

As informações que circulam sobre o pacto não mencionam a retirada israelense do sul do Líbano. O ministro da Defesa, Israel Katz, afirmou na segunda-feira que suas tropas permaneceriam por tempo indeterminado no país vizinho.

Karim Bitar, professor de Oriente Médio na Universidade Sciences Po de Paris, observou que "o acordo não parece envolver Israel, o que, no momento, significa que não é parte" do pacto. 

"É muito pouco provável que aconteça uma retirada israelense do sul do Líbano", acrescentou. 

As forças israelenses controlam uma faixa de território libanês ao longo de sua fronteira.

"Dezenas de milhares de soldados israelenses estão no sul do Líbano", onde ocupam posições fixas, embora o Hezbollah ainda tenha presença na região.

"É a maior invasão desde sua retirada em 2000", acrescentou a fonte em referência à saída anterior de Israel, após 20 anos de ocupação. 

O Hezbollah afirma que enviou reforços ao sul do rio Litani, 20 quilômetros ao norte da fronteira com Israel, após o início da guerra. 

Com o acordo de 2024 que acabou com um conflito anterior, o Hezbollah deveria retirar seus combatentes da área.

Que futuro aguarda o Hezbollah?

Washington pressionou o Líbano a desarmar o Hezbollah, mas o acordo não faz referência aos combatentes.

"O Irã parece não ter se comprometido a acabar com seu apoio e financiamento ao Hezbollah", segundo Bitar. 

O especialista militar Riad Kahwaji declarou que "o Hezbollah não aceitará abrir mão das armas e a crise se prolongará". 

Ele antecipa que isso pode levar à instabilidade política e, inclusive, distúrbios, "especialmente agora que o Hezbollah considera que, por meio do Irã, saiu vitorioso com este acordo".

Negociações Israel-Líbano? 

Líbano e Israel iniciaram negociações diretas em Washington desde abril para acabar com as hostilidades e desvincular o Líbano da guerra regional.

Uma nova rodada de conversações está programada para este mês. 

O primeiro-ministro libanês, Nawaf Salam, afirmou na segunda-feira que seu país intensificará os "esforços" nas negociações em Washington "para assegurar a plena retirada israelense".

Mas, após o acordo entre Teerã e Washington, alguns duvidam da eficácia das negociações. 

Bitar disse que "o Líbano pode se ver novamente como bode expiatório que paga o preço tanto da inexperiência americana, do cinismo iraniano, da soberba israelense e (...) da falta de uma estratégia clara de sua própria classe política".

  • Google Discover Icon
AF
postado em 16/06/2026 08:23
x