Racismo

Dores da mulher negra: desafios e resistência

Historicamente, nós, mulheres negras, enfrentamos o racismo, o sexismo e as demais formas de opressão, o que nos torna invisíveis diante da sociedade

A escravidão arrancou nossas identidades, cultura e dignidade. Tivemos nossos corpos negociados como mercadoria barata -  (crédito: kleber Sales/CB/D.A Press)
A escravidão arrancou nossas identidades, cultura e dignidade. Tivemos nossos corpos negociados como mercadoria barata - (crédito: kleber Sales/CB/D.A Press)

JOANA DARC MELO, jornalista e radialista, ativista dos movimentos negro e LGBT+

Ao ser convidada para escrever sobre negritude, como mulher negra de pele preta, escolhi falar dos desafios de ser uma mulher negra no Brasil. De início, não dá para falar da mulher negra sem mergulhar no seu mundo de dor, silenciamento e violências. O silenciamento da mulher negra é uma questão crítica, que desencadeia outras formas de violência e que merece atenção e ações sérias para mudar esse cenário.

Historicamente, nós, mulheres negras, enfrentamos o racismo, o sexismo e as demais formas de opressão, o que nos torna invisíveis diante da sociedade. Falar sobre isso é, antes de tudo, sentir dor. É necessário entender esse fenômeno para buscar visibilidade e justiça para todas nós.

O silenciamento da mulher negra se manifesta todos os dias. Quando lhe é negada a voz nos espaços de fala e de poder, quando lhe roubam o protagonismo e desprezam sua história e cultura. Muito mais, quando usam estereótipos para sub-representá-la num sistema de cotas mesquinho.

Em tempo de exploração midiática, mulheres negras não passam de figuração irreal em novelas que só reforçam o apagamento, mesmo que, atualmente, a grande mídia ouse escrever a parte do enredo da negritude que lhes interessa.

No ambiente de trabalho, a discriminação salarial, a falta de oportunidades de ascensão profissional e negativas aos cargos de chefia são gritantes. Na escala econômica, a mulher negra está na rabeira. Tudo isso colabora para acentuar ciclo de exclusão e ascensão social que limita seu potencial e contribui para a perpetuação das desigualdades estruturais.

Mesmo quando ocupam posições de destaque, muitas vezes, suas ideias e realizações são desvalorizadas ou apropriadas por pessoas brancas. Digo ainda que a herança maldita da escravidão e da colonização nos trouxe consequências danosas, ainda hoje enraizadas na sociedade que perpetuaram o racismo e a falta de oportunidades. 

Falar sobre isso traz um sentimento triplo de revolta, indignação e muita dor. A escravidão arrancou nossas identidades, cultura e dignidade. Tivemos nossos corpos negociados como mercadoria barata. Fomos expostas a violências físicas, emocionais, psicológicas e todas outras formas de opressão que, absurdamente, ainda dilaceram a alma neste século 21.

Além disso, a mulher negra muitas vezes carrega o estigma da hiperssexualização. A busca por amor e aceitação como ela é pode resultar em um ciclo de vazio interior e profunda carência e, consequentemente, levar a relacionamentos interpessoais superficiais ou tóxicos. A mulher negra precisa se esforçar muito mais para ser vista e valorizada. E isso provoca um desgaste de energia emocional e psicológica gigantesca.

Estigmatizadas como mulher servil para iniciação sexual de senhores brancos e abusadas e violentadas no período colonial, comercializadas como objetos de luxúria, fomos relegadas ao esquecimento. Ao uso e usufruto de prazeres mundanos. Mais nada.

Assim, a mulher negra é, eternamente, solitária. As dificuldades enfrentadas contribuem para acentuar esse sentimento de desamparo e solidão. Quando chegam os filhos, muitas vezes, são abandonadas, e lá vai ela revirar o mundo em defesa de sua cria. É dela o papel de mãe solitária, provedora do lar. Na maioria das vezes, a falta do acesso à saúde, condições precárias e vulnerabilidade social acentuam a solidão e o desamparo, tornando ainda mais difícil lidar com essas e outras adversidades.

Ainda que na contemporaneidade, mulheres negras continuem sendo alvo do silenciamento, das discriminações e violências, não posso terminar esse texto sem mencionar a força e resiliência dessas mulheres. Elas criam laços, apoiam-se umas às outras, num aprendizado ancestral de acolhimento, união e cooperação.

Não só isso. Guiadas pela ancestralidade, encontram na literatura, artes, música, dança, formas poderosas de expressão que ajudam a combater a solidão, o silenciamento, dar visibilidade à cultura e aos jeitos que só a raça negra possui.

Aos poucos, fomos nos engajando na luta por igualdade racial e de direitos. Levantamos nossas vozes, reafirmando nossa existência, resistindo, exigindo respeito e dignidade. Os movimentos sociais negros, incluindo os feministas, foram grandes alicerces para o resgate da cultura e das riquezas de todo o povo negro, numa movimentação que desafia as estruturas de opressão e promovem visibilidade das questões que afetam a população negra como um todo. Muito me orgulha ser parte desse universo. Muito me engrandece integrar história forte, mesmo com tantos desafios ainda a enfrentar. 

postado em 29/03/2025 06:00
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