
» ANDERSON FERREIRA MARTINS, Sociólogo culturalista com ênfase em desigualdade social e política, conflitos étnicos e raciais, pensamento político brasileiro, história política do Brasil e sistemas eleitorais
Recentemente, Brasil e Argentina se enfrentaram por uma vaga na Copa do Mundo de 2026. Fora a goleada, a partida seguiu o roteiro esperado para uma das maiores rivalidades do futebol mundial: provocações, embaixadinhas, entradas violentas e conflitos que transcendem o futebol. Para além das quatro linhas, há fantasmas antigos que assombram jogadores brasileiros: racismo, conivência institucional e silêncio cúmplice.
Poucos sabem que essa rivalidade começou com um dos atos mais abjetos da história do futebol. Em 1920, a Seleção Brasileira foi recebida na Argentina com uma charge racista que retratava seus jogadores como macacos. Em resposta, o Brasil entrou em campo com apenas sete atletas. A ferida, no entanto, não parou ali. No ano seguinte, o Brasil voltou à Argentina para disputar a Copa América, mas, sob as ordens do então presidente da República, Epitácio Pessoa, nenhum jogador negro foi convocado. A mesma pele que encantava com talento era rejeitada por racismo institucional.
Mais de um século depois, o mesmo racismo que vestia terno nas charges agora se disfarça de torcida. Recentemente, durante uma partida da Libertadores Sub-20, o atacante Luighi, do Palmeiras, foi alvo de ofensas racistas no Paraguai. A imagem é brutal: um torcedor do Cerro Porteño faz gestos de macaco, enquanto outro cospe no jovem atleta. A punição? Portões fechados e multa de US$ 50 mil. Um tapa na cara com luvas de seda.
Dias depois, o presidente da Conmebol, Alejandro Domínguez, quando questionado sobre um eventual boicote dos clubes brasileiros à Libertadores, ironizou com uma metáfora infeliz: "Seria como o Tarzan sem a Chita". No momento em que o futebol precisava de liderança, ele ofereceu uma piada de mau gosto, carregada de racismo normalizado, alimentando o preconceito e a violência nas arquibancadas.
Em uma região marcada por profundas desigualdades, o campo de futebol se tornou um espaço de afirmação para jogadores negros. Mas é também onde os negros são humilhados — pela cor da pele — quando ousam brilhar demais.
Não por acaso, a luta de Vinícius Júnior na Espanha se conecta diretamente a esse cenário estrutural. Desde que começou a se destacar no Real Madrid, Vini tem sido alvo de ofensas racistas por torcidas adversárias, recebendo cantos de macaco em pleno século 21, em um dos países mais ricos do mundo. Sua resistência, no entanto, rompe o silêncio institucional: ele denuncia, confronta presidentes de ligas, mobiliza a imprensa e a opinião pública.
Vini transformou-se em símbolo de uma nova geração que não se cala diante do racismo e desafia, com coragem, estruturas que, durante décadas, fingiram não ver. Sua luta ultrapassa fronteiras, inspira jovens e pressiona as instituições a saírem da zona de conforto, deixando claro que o futebol europeu, apesar do verniz civilizatório, ainda reproduz a mesma lógica de exclusão e violência racial como a vista nos estádios sul-americanos.
E há algo ainda mais simbólico nessa conexão entre o Velho Continente e a nossa realidade. A Espanha, palco da luta de Vini, foi também colonizadora da América do Sul. O modelo de dominação que, por séculos, classificou povos como inferiores pela cor da pele, religião e origem é o mesmo que hoje se reflete nas arquibancadas e nas estruturas de poder do futebol. Não é coincidência que os gritos de "macaco" ecoem tanto em Madri quanto em Assunção e Buenos Aires. São ecos de uma cultura racista enraizada desde os tempos da colonização, que continua a classificar corpos negros como objetos de entretenimento — desde que calados e subalternos.
O maior símbolo de desrespeito a todo um povo e as culturas de um continente foi protagonizado pela própria Conmebol, quando, em 2018, levou a final da Copa Libertadores da América — torneio criado em homenagem aos líderes da independência latino-americana — para ser disputada em plena Madri. A capital do império que saqueou o continente sul-americano e dizimou populações virou palco da celebração máxima de um torneio que carrega no nome a promessa de liberdade. Nada mais contraditório. Nada mais revelador. A imagem foi clara: o colonizador foi homenageado, e os libertadores, silenciados. Foi o momento em que o futebol sul-americano se ajoelhou diante de seu algoz, e o racismo estrutural ganhou mais uma medalha simbólica pendurada no pescoço da hipocrisia institucional.
O racismo é estrutural, e as entidades do futebol são responsáveis por sua manutenção. As punições são brandas, os discursos, genéricos, e as campanhas publicitárias, cosméticas. Racismo não se combate com hashtags.
Precisamos ir além. Clubes cujas torcidas pratiquem atos racistas devem ser desclassificados, e torcedores, banidos dos estádios. Federações que falharem no combate ao racismo devem ser suspensas de torneios internacionais. A Conmebol deve se reformular para os novos tempos com dirigentes antirracistas.
Domínguez, dirigente máximo do futebol sul-americano, expôs seu preconceito na semana do Dia Internacional Contra a Discriminação Racial. Não estamos mais em 1920. A sociedade não tolera mais o racismo.
O futebol pode continuar sendo uma selva, mas cabe a nós decidir se ela será de preconceito ou de resistência. Tarzan sem Chita não é o problema. O problema é olhar no espelho e não reconhecer o macaco que ainda vive dentro das estruturas do futebol sul-americano.