
A virada de 1988 para 1989 foi extremamente importante para o Brasil, e a novela Vale tudo, de Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères, exibida nesse período pela TV Globo, foi um retrato da sociedade brasileira nessa transição da ditadura militar para a democracia.
Lançada poucos meses antes da promulgação da Constituição de 1988 e precedendo as eleições presidenciais de 1989, a trama abordava temas como corrupção, desigualdade social, ética e impunidade, questionando se "vale tudo" para alcançar o sucesso. Esse conceito dialogava diretamente com as incertezas políticas e sociais da época.
A transição democrática trouxe promessas de mudanças estruturais, mas também revelou contradições. Na novela das oito, a vilã Odete Roitman (Beatriz Segall), por exemplo, representava uma elite empresarial arrogante e inescrupulosa, enquanto Raquel Accioli, a protagonista honesta e batalhadora, defendida pela então "namoradinha do Brasil" Regina Duarte, enfrentava as dificuldades impostas por um sistema corrupto, classista e opressor. Essa dualidade refletia o Brasil no qual o otimismo com a democracia reconquistada convivia com o ceticismo em relação às instituições e à persistência das desigualdades.
O Brasil contemporâneo passou por diversas transformações políticas e econômicas, mas ainda enfrenta problemas estruturais semelhantes aos da época de Vale tudo, que volta em formato de remake, com adaptações à contemporaneidade. A corrupção continua sendo uma questão, e o sentimento de desilusão com a política intensificou-se nos últimos anos com crises de representatividade, polarização extrema e ataques à democracia.
Nos anos 1980, a televisão exercia um papel central na construção de narrativas sobre o país, e as novelas ajudavam a moldar o debate nacional. Hoje, a comunicação se fragmentou com as redes sociais, gerando um ambiente mais complexo e volátil. Por outro lado, pautas identitárias e de direitos humanos ocupam espaço maior na arena pública.
O comportamento social do país que atravessou dos anos 1980 ao período atual revela avanços significativos, especialmente em relação a questões como racismo, machismo e homofobia. Vale tudo refletiu uma sociedade conservadora em vários aspectos. Na televisão, preconceitos eram naturalizados e frequentemente tratados com condescendência ou humor. Hoje, porém, ainda que a discriminação continue presente, há um olhar mais amplo sobre direitos e equidade.
A Odete de Debora Bloch seguirá politicamente incorreta, representando a atual onda de discurso de ódio que assola o mundo. Entretanto, a nova Raquel será incorporada por uma atriz negra (Taís Araújo), personagens que eram meras donas de casa terão uma profissão e a lésbica Cecília (agora vivida por Maeve Jinkings) não será literalmente morta pela censura como a interpretada pela colega Lala Deheinzelin na primeira versão.
E é nesse contexto que o remake de Vale tudo ganha um interessante apelo social. Para quem assistiu à primeira versão, será curioso acompanhar a releitura da novela. Nem que seja para comparar as duas realidades.