Opinião

Biotecnologia: uma agenda prioritária para o Brasil

A dependência externa em biotecnologia configura um risco estratégico que afeta diretamente a saúde pública e a economia do Brasil

PRI-0104-OPINI -  (crédito: Maurenilson Freire)
PRI-0104-OPINI - (crédito: Maurenilson Freire)

Dimas Tadeu CovasMédico hematologista, professor titular de medicina clínica da USP e ex-diretor do Instituto Butantan

Nos últimos anos, os produtos biotecnológicos emergiram como um dos segmentos mais dinâmicos e estratégicos da indústria farmacêutica global, revolucionando o tratamento de inúmeras enfermidades. Terapias avançadas, como anticorpos monoclonais (produzidos a partir de um único clone celular, com alta especificidade para combate a um antígeno), proteínas recombinantes (sintetizadas para reproduzir funções naturais) e intervenções gênicas e celulares transformaram abordagens terapêuticas para doenças que vão do câncer às condições autoimunes e às enfermidades raras. Essa revolução redefiniu modelos de negócios e políticas de saúde em diversas partes do mundo — mas o Brasil patina ao tentar acompanhá-la.

O impacto econômico da biotecnologia é evidente tanto para os sistemas de saúde públicos quanto para os privados, ao mesmo tempo em que representa uma das principais fontes de faturamento das gigantes farmacêuticas. Em 2024, as 13 maiores empresas globais do ramo alcançaram uma receita combinada próxima a US$ 700 bilhões, com nomes de destaque, como Eli Lilly, que atingiu uma capitalização de mercado de US$ 698 bilhões, impulsionada pelos medicamentos Mounjaro e Zepbound, e Novo Nordisk, que registrou US$ 527,5 bilhões, graças aos sucessos de Ozempic e Wegovy.

A China tem se destacado na corrida pela liderança em biotecnologia. O país asiático intensificou seus investimentos em pesquisa e desenvolvimento, ultrapassando 3,3 trilhões de yuans em 2023, o que representa 2,64% do seu PIB, e registrando um aumento de 8,1% em relação ao ano anterior. Com planos para injetar 10% a mais no setor em 2025, a China almeja consolidar sua autossuficiência tecnológica e posicionar-se como um dos principais polos de inovação e produção biofarmacêutica no mundo.

Enquanto isso, o Brasil permanece fortemente dependente da importação de insumos biofarmacêuticos, sendo que mais de 95% dos Ingredientes Farmacêuticos Ativos são trazidos do exterior. Apesar de iniciativas como a Política Nacional de Biotecnologia, lançada em 2007, os avanços foram tímidos, mantendo o país afastado dos líderes do setor. Essa realidade impõe desafios significativos para a saúde pública e o desenvolvimento econômico brasileiro, que se vê vulnerável em um cenário global cada vez mais competitivo.

É imperativo que o Brasil adote políticas mais robustas e inovadoras para fortalecer sua capacidade produtiva e tecnológica. A atenção deve se concentrar em áreas estratégicas, como a produção de vacinas, cuja importância foi comprovada durante a pandemia, e a ampliação do uso de anticorpos monoclonais, fundamentais tanto na oncologia quanto no tratamento de doenças autoimunes. A produção de proteínas recombinantes, essenciais para o tratamento de condições raras e genéticas, e o desenvolvimento de terapias gênicas e celulares, que abrem caminho para uma medicina cada vez mais personalizada, são desafios que exigem investimentos contínuos.

As atuais políticas públicas, exemplificadas pelas Parcerias de Desenvolvimento Produtivo (PDP), em que os setores público e privado se unem para ampliar o acesso a medicamentos e produtos de saúde estratégicos para o SUS, revelam-se insuficientes, pois sua execução foi prejudicada por falta de investimento, descontinuidade e interesses desalinhados. 

É necessário explorar instrumentos mais eficazes, como as encomendas tecnológicas, já previstas na legislação de inovação, mas ainda subutilizadas, que poderiam impulsionar o desenvolvimento de novas tecnologias por meio de parcerias entre centros de pesquisa e empresas nacionais. Adicionalmente, a adoção de estratégias de emparelhamento tecnológico, inspiradas em modelos bem-sucedidos em países, como China, Índia e Coreia do Sul, pode se mostrar decisiva. Essa abordagem incluiria acordos de cooperação e licenciamento de tecnologia que incentivem a produção local e o treinamento de profissionais brasileiros, a expansão dos investimentos em infraestrutura produtiva e a criação de programas de formação e retenção de talentos, fundamentais para evitar a fuga de capital humano.

A dependência externa em biotecnologia configura um risco estratégico que afeta diretamente a saúde pública e a economia do país. Parte importante dessa agenda recai sobre o Complexo Econômico e Industrial da Saúde, coordenado pelo Ministério da Saúde, que precisa ser revitalizado por meio de ações mais ambiciosas e alinhadas com as demandas do setor produtivo. Se o Brasil pretende participar efetivamente da nova era da bioeconomia, fomentar a inovação e reduzir sua dependência do exterior, o momento de agir é agora.

 

Por Opinião
postado em 01/04/2025 06:00
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