
Certa vez, Elis Regina afirmou: "Se Deus cantasse, seria com a voz de Milton Nascimento". A relação entre a cantora gaúcha, a maior intérprete da história da música popular brasileira, e o extraordinário cantor e compositor carioca/mineiro sempre foi de fraterna amizade. Os dois estão novamente em evidência, por diferentes circunstâncias, e têm chamado a atenção dos incontáveis fãs.
Em cartaz nas telas de cinema, o documentário Milton Bituca Nascimento é dirigido por Flavia Moraes, que acompanhou o artista na turnê de despedida dos palcos, com o show Última sessão de música, entre 11 de junho e 13 de novembro de 2022. O espetáculo, apresentado em Brasília dia 22 de setembro, onde assisti, no Ginásio Nilson Nelson, teve encerramento apoteótico no Estádio Mineirão, em Belo Horizonte, em 13 de novembro. Posteriormente, a turnê foi levada à Europa e aos Estados Unidos.
No filme, de acordo com a diretora, tons amorosos se sobrepõem aos informativos. Em destaque, mais de 40 depoimentos concedidos por personalidades como Herbie Hancock, Paul Simon, Sérgio Mendes e pelo cantor carioca Zé Ibarra. O jovem cantor carioca esteve ao lado de Milton, fazendo backing vocal durante toda a excursão, inclusive, fazendo abertura das apresentações. O projeto visou documentar os acontecimentos da turnê "como colunas vertebrais", de acordo com a cineasta, em matéria assinada pelo crítico de cinema Ricardo Daehn, publicada na última quarta-feira, no Correio. A película traz ainda a leitura de um texto de Flávia Moraes e do jornalista gaúcho Marcelo Féla, feita por Fernanda Montenegro, expoente das artes cênicas brasileiras.
Milton Nascimento surgiu para o grande público ao classificar-se em segundo lugar na segunda edição do Festival Internacional da Canção, realizado no Maracanãzinho (RJ), entre 19 e 22 de outubro de 1967. Logo depois, o cantor iria criar e liderar o Clube da Esquina, tendo a companhia de Lô Borges, Beto Guedes, Danilo Venturini, Tavinho Moura, Murilo Antunes e Fernando Brant, seu principal parceiro.
Dona de interpretação inigualável, Elis deixou precioso legado para a MPB, representado por canções que fazem parte da memória afetiva de admiradores. Algumas compostas por Milton Nascimento, como Nas asas da Panair, Ponta de areia e Travessia; além de O bêbado e a equilibrista (João Bosco e Aldir Blanc), Basta de clamares inocência (Cartola) e Fascinação (Dante Marchetti e Maurice de Féraudy). Também se tornaram inesquecíveis os álbuns lançados por ela, como Falso brilhante e Transversal do tempo, sem esquecer os gravados com Tom Jobim e Jair Rodrigues.
Entre os shows da Pimentinha — apelido que Elis carregava —, assisti a Transversal do tempo, no teatro da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, como parte do primeiro encontro do Mercosul, em 1977; e o Essa mulher, no Cine Brasília, em 23 de novembro de 1979. Um dia antes, tive o privilégio de entrevistá-la no antigo Torre Hotel, em que falou sobre aspectos da vitoriosa carreira.
Num dos momentos da conversa, ao ser questionada sobre a participação num show pela programação artística das Olimpíadas do Exército, em Belo Horizonte, durante a ditadura militar, Elis respondeu: "Quero deixar claro que fui obrigada. Chegaram para mim e perguntaram 'Como é, você prefere ir ou quer ser levada?'. Diante de tanta amabilidade, fui. Eram tantas coisas horrorosas das quais a gente tomava conhecimento, que foi difícil me livrar daquela situação".