
Daiane Zanon — economista e gerente de dados do Instituto Ayrton Senna
Quando uma criança reprova uma vez, muita gente encara isso como um tropeço passageiro. Mas, quando as repetências se acumulam, cresce também o risco de abandono escolar. É aí que começa um processo silencioso de exclusão que afeta não apenas o futuro daquele estudante, mas o próprio desenvolvimento do país.
Reprovação e abandono escolar ainda são tratados como algo "normal" no Brasil. Mas não deveriam. Todos os anos, uma parcela significativa de estudantes brasileiros repete de ano ou deixam a escola antes de concluir a educação básica. Em 2025, mais de 760 mil alunos foram reprovados e cerca de 290 mil abandonaram os estudos no ensino fundamental e médio, segundo dados do Censo Escolar, divulgados pelo Inep. Apesar de ser a menor taxa desde 2015 do 1º ano do ensino médio (2,2%), por trás desses números existem histórias de frustração, perda de autoestima e sonhos interrompidos.
Durante muito tempo, a repetência foi vista como solução para dificuldades de aprendizagem. A lógica parecia simples: se o aluno não aprendeu, precisa repetir. Até hoje, muitas famílias acreditam que reprovar ajuda o estudante a amadurecer ou "aprender direito". Mas as evidências mostram justamente o contrário. Se reprovar resolvesse o problema da aprendizagem, o Brasil já teria encontrado essa solução há muito tempo.
Quem reprova tem mais chances de abandonar a escola, maior dificuldade para concluir os estudos e mais risco de perder o vínculo com a aprendizagem. Em vez de funcionar como oportunidade de recuperação, a repetência frequentemente faz o estudante acreditar que não é capaz de aprender.
Há ainda um aspecto pouco discutido nesse processo: normalmente o aluno repete todas as disciplinas, inclusive aquelas em que teve bom desempenho. Ou seja, o sistema ignora a parte bem-sucedida da experiência ao mesmo tempo em que obriga o estudante a reviver a parte marcada pelo fracasso, sem enfrentar exatamente as dificuldades que levaram à reprovação.
Com o tempo, as dificuldades se acumulam, o interesse diminui e a escola passa a parecer cada vez mais distante. Muitos estudantes sentem vergonha de estar atrasados em relação aos colegas e deixam de enxergar sentido na vida escolar.
A repetência ajuda a explicar um problema recorrente nas escolas brasileiras: alunos com idade acima da esperada para a série em que estudam. Hoje, cerca de 16% dos estudantes do ensino médio têm pelo menos dois anos de atraso escolar. Muitos chegaram a essa situação depois de sucessivas reprovações.
O abandono escolar, por sua vez, raramente acontece de forma repentina. Na maioria das vezes, é resultado de um processo lento de desconexão e que também refletem elementos sociais de desigualdade. Problemas como pobreza, violência, insegurança alimentar e necessidade de trabalhar tornam essa permanência ainda mais difícil.
As consequências ultrapassam os muros da escola. Jovens que abandonam os estudos tendem a enfrentar mais dificuldades para conseguir emprego, têm renda menor ao longo da vida e ficam mais vulneráveis socialmente. Para o país, isso significa aumento das desigualdades, menor produtividade e menos oportunidades de desenvolvimento.
E esses impactos não atingem todos da mesma forma. Os índices de reprovação e abandono são maiores entre estudantes mais pobres, negros, indígenas e moradores de áreas rurais. Na prática, isso significa que a escola muitas vezes acaba reproduzindo desigualdades que já existem na sociedade.
Enfrentar esse desafio não significa defender aprovação automática. Aprender continua sendo essencial. O que precisa mudar é a forma como o sistema reage às dificuldades dos estudantes.
Nesse processo, o professor tem papel decisivo. São os docentes que percebem os primeiros sinais de desmotivação, acompanham as dificuldades de aprendizagem e constroem vínculos capazes de manter muitos jovens conectados à escola. Nenhuma política para reduzir abandono e reprovação funciona sem professores valorizados, preparados e apoiados.
As redes de ensino que conseguem melhorar esses indicadores costumam investir em acompanhamento próximo da aprendizagem, apoio individualizado aos alunos e identificação precoce dos estudantes em risco. Quando escola, professores e famílias conseguem atuar juntos, as chances de permanência aumentam significativamente.
O Brasil precisa abandonar a ideia de que reprovação em massa é sinônimo de qualidade. Quando milhões de estudantes fracassam todos os anos, não estamos diante de um problema individual, mas de um desafio coletivo.
Garantir o direito à educação significa mais do que oferecer matrícula. Significa assegurar que crianças e jovens consigam aprender, permanecer na escola e construir perspectivas reais de futuro.
Um país que naturaliza a reprovação em massa acaba naturalizando também a perda de milhões de futuros. E nenhuma sociedade consegue se desenvolver plenamente quando parte de seus jovens aprende, desde cedo, que a escola não foi feita para eles.
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