
O cachorro que hesita antes de subir um degrau ou o gato que abandona lugares altos da casa não estão apenas "ficando velhos". Esses comportamentos, frequentemente naturalizados pelos tutores, podem indicar dor crônica, um dos principais sinais da osteoartrite, doença degenerativa que afeta as articulações e compromete progressivamente a mobilidade dos pets.
O problema não está apenas na doença em si, mas na forma como ela é percebida. A associação automática entre envelhecimento e perda de disposição ainda mascara sintomas importantes, atrasando o diagnóstico e reduzindo as chances de controle eficaz da dor.
Esse cenário se intensifica em um contexto recente: os animais vivem mais do que antes, mas a longevidade não veio acompanhada, na mesma proporção, de preparo para lidar com doenças crônicas. Segundo o médico veterinário ortopédico Thiago Brito, o aumento dos casos é consequência direta dessa mudança no perfil dos pets. "Temos observado aumento dos casos, principalmente porque cães e gatos vivem mais hoje. O envelhecimento aumenta a chance de desgaste articular e doenças degenerativas", justifica.
O prolongamento da vida dos animais é resultado de avanços importantes — da alimentação mais equilibrada à ampliação da medicina preventiva. Mas esse progresso trouxe um efeito colateral: a maior incidência de doenças de longa duração, que exigem acompanhamento contínuo e custo acumulado. "Como consequência, doenças crônicas passaram a ser mais frequentes, entre elas a osteoartrite", explica o especialista.
Além do envelhecimento, fatores estruturais ajudam a explicar o avanço da doença. A popularização de determinadas raças, muitas vezes sem controle rigoroso de reprodução, contribui para a disseminação de predisposições genéticas. Soma-se a isso o aumento da obesidade entre pets, que intensifica a sobrecarga nas articulações. Na prática, isso se traduz em um novo perfil de pacientes: animais mais velhos, com quadros mais complexos e, em muitos casos, já com limitações instaladas.
Sinais ignorados, dor prolongada
O maior obstáculo no enfrentamento da osteoartrite continua sendo o diagnóstico tardio. Não por falta de tecnologia, mas por falhas na percepção cotidiana. A doença raramente começa com sinais evidentes. Ela se instala de forma gradual, alterando pequenos hábitos: o animal passa a evitar brincadeiras, demora mais para se levantar, reduz a frequência de movimentos ou muda o comportamento
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Essas alterações, muitas vezes interpretadas como "preguiça" ou "idade", retardam a procura por avaliação veterinária. Em muitos casos, o animal só chega à clínica quando a dor já interfere na locomoção. "Recebemos mais pacientes idosos, obesos e também diagnosticados mais cedo, porque os tutores estão mais atentos", diz.
Esse avanço na conscientização, no entanto, convive com um problema persistente: a banalização da dor no envelhecimento animal. Ao tratar a perda de mobilidade como inevitável, parte dos tutores deixa de buscar alternativas que poderiam garantir mais conforto e autonomia ao pet.
Viver mais exige cuidar diferente
Se antes o desafio era prolongar a vida dos animais, agora é garantir qualidade nesse tempo ampliado. E isso passa, necessariamente, por prevenção. A osteoartrite não tem cura, mas pode ser retardada e controlada com intervenções ao longo de toda a vida do animal. "Controle de peso, exercícios regulares, alimentação balanceada e acompanhamento veterinário periódico são fundamentais, especialmente em raças com predisposição genética", orienta Thiago.
Animais acima do peso ideal têm maior sobrecarga articular, o que acelera o desgaste e intensifica a dor. Por isso, a prevenção começa cedo — antes mesmo dos primeiros sinais. "O ideal é orientar desde filhote sobre dieta correta, evitar obesidade e manter uma rotina ativa", completa. O ambiente doméstico também influencia diretamente no bem-estar dos pets com osteoartrite. Ajustes simples, como evitar pisos escorregadios, reduzir a necessidade de saltos e oferecer superfícies mais confortáveis, ajudam a minimizar o impacto da doença.
Quando o diagnóstico é feito, o tratamento exige abordagem contínua e, muitas vezes, combinada. "Hoje contamos com terapias multimodais, que incluem controle da dor, fisioterapia, acupuntura, terapias regenerativas e até cirurgias, sempre com protocolos individualizados", explica. Essa diversidade de opções, embora amplie as possibilidades de cuidado, também escancara um desafio: o acesso. Tratamentos prolongados podem ter custo elevado, o que limita a adesão de parte dos tutores.
Fique atento aos sinais
- Dificuldade para subir escadas, menos disposição, relutância em brincar e mudanças de comportamento podem indicar dor — e não apenas envelhecimento.
Controle o peso
- O sobrepeso aumenta a carga nas articulações e acelera o desgaste. Manter o peso ideal é uma das medidas mais importantes no controle da doença.
Mantenha o pet ativo
- Exercícios leves e regulares ajudam a preservar a mobilidade. A intensidade deve ser orientada por um médico veterinário.
Adapte o ambiente
- Evite pisos escorregadios, reduza a necessidade de saltos e ofereça camas confortáveis e de fácil acesso.
Invista em acompanhamento veterinário
- Consultas regulares permitem identificar a doença precocemente e ajustar o tratamento conforme a evolução do quadro.
Siga o tratamento corretamente
- A osteoartrite não tem cura, mas pode ser controlada com medicamentos, fisioterapia e outras abordagens indicadas por especialistas.
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