
Um mergulho durante as férias mudou a vida de Mel Frisby para sempre. Em 2022, a britânica, então com 35 anos, viajava pela Turquia ao lado do filho mais velho, de 13 anos, e de uma amiga quando aceitou um desafio aparentemente inofensivo: saltar de um barco no mar.
Apesar do medo que sempre teve do oceano, entrou na brincadeira e pulou na água, sem imaginar que aquele momento marcaria o início de uma longa batalha contra um câncer raro.
Conforme contou ao tabloide britânico Daily Mail, assim que voltou à superfície Mel teve um forte sangramento pelo nariz. Como o episódio cessou rapidamente, ela não deu importância e continuou aproveitando a viagem.
Na mesma noite, porém, percebeu uma pequena deformidade na parte superior do nariz. Convencida de que havia sofrido uma pancada ao atingir a água, ignorou o problema, já que não sentia dor, e voltou para casa, no Reino Unido, poucos dias depois.
Com o passar das semanas, entretanto, o nariz passou a apresentar uma deformação cada vez mais evidente. A situação chamou a atenção do marido durante um passeio em família, quando ele insistiu para que ela procurasse atendimento de emergência.
No hospital, os médicos descartaram uma fratura, mas decidiram encaminhá-la a especialistas em otorrinolaringologia para investigar a alteração. Os exames revelaram uma infecção grave nas fossas nasais, o que levou à internação imediata, embora Mel não apresentasse outros sintomas latentes.
Novas tomografias e exames laboratoriais mostraram que o lado esquerdo do osso nasal estava sendo destruído. Ela recebeu o diagnóstico de osteomielite, uma infecção óssea grave, e foi submetida à cirurgia no mesmo dia para drenar a região, além de iniciar tratamento com antibióticos intravenosos de alta potência.
Situação se agravou
A expectativa inicial era de que, após controlar a infecção, bastaria reconstruir o nariz. No entanto, mesmo depois da cirurgia, o inchaço continuou aumentando. Os médicos atribuíram a alteração ao processo normal de recuperação até que, durante uma chamada de vídeo, uma amiga percebeu que o caroço havia crescido significativamente. Além de maior, ele havia se tornado endurecido, doloroso e com textura semelhante à de um nó dos dedos da mão. Diante da mudança, o marido a levou novamente ao pronto-socorro.
Depois de esperar cerca de 18 horas por atendimento, Mel foi internada mais uma vez. A preocupação aumentou quando percebeu a mudança na postura da médica. A especialista realizou uma biópsia e solicitou uma ressonância magnética com urgência.
Ao caminhar pelo corredor vazio do hospital, Mel começou a compreender a gravidade da situação. Ela se recorda de ter parado por um instante, fechado os olhos e dito em voz alta: "Há um câncer no meio do meu rosto."
Em menos de 72 horas, os medos da britânica se confirmaram por meio do diagnóstico de carcinoma espinocelular sinonasal, ou carcinoma de células escamosas, em estágio 3/4.
Sintomas e cirurgias
Depois do diagnóstico, Mel percebeu que já apresentava alguns indícios havia algum tempo. Costumava acordar com dores no nariz, acreditando que o marido a esbarrava sem querer enquanto dormia, além de sofrer com um cansaço extremo que a fazia adormecer por volta das 19h até mesmo durante as férias.
O oncologista clínico Rafael Amaral de Castro, do Hospital Santa Lúcia, em Brasília, explicou ao Correio que esse tipo de tumor costuma passar despercebido justamente porque os primeiros sinais são semelhantes aos de problemas muito mais comuns.
"Sangramento e obstrução nasal são sintomas tão comuns que qualquer médico pensaria em sinusite, rinite ou ressecamento. Mas o diagnóstico veio: carcinoma de células escamosas sinonasal."
O tumor de Mel cresceu em direção à parte externa do rosto, tornando-se visível. Caso tivesse avançado para a região do cérebro, poderia permanecer silencioso por muito mais tempo.
Na sequência veio outra etapa angustiante: a espera pela rinectomia, procedimento cirúrgico que remove parte ou todo o nariz. Os médicos só definiriam a extensão da retirada durante a operação. Caso fosse parcial, seria possível reconstruir o nariz com tecidos do próprio corpo; se fosse total, ela precisaria de implantes magnéticos e de uma prótese.
A cirurgia retirou completamente o osso nasal, mas preservou as narinas, permitindo que Mel passasse por cirurgias de reconstrução.
"Eu nem me permiti pensar na minha aparência", ela explicou. "Minha única preocupação eram meus filhos e meu marido", continuou.
O tratamento foi longo e exigiu quatro cirurgias reconstrutivas, seis procedimentos para controlar infecções e 30 sessões intensivas de radioterapia. Em uma das operações, médicos retiraram cartilagem das costelas para reconstruir parte do nariz.
As cirurgias necessárias para retirar o tumor e reconstruir o nariz podem deixar sequelas importantes, que variam conforme a extensão da doença e a área atingida. Rafael Amaral de Castro alertou que, embora esses procedimentos sejam fundamentais para aumentar as chances de cura, eles podem trazer impactos permanentes.
"Nos casos avançados, a cura é possível em 30% a 50%, mas o preço é real: perda de olfato, riscos visuais se o tumor atingiu a órbita, fístulas em cirurgias de base de crânio."
A oncologista Gabrielle Scattolin, da Rede Américas e membro da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), reforçou o entendimento de que a escolha do tratamento depende do estágio do câncer.
"Sempre que possível a cirurgia é a principal estratégia, geralmente seguida de radioterapia. Em tumores mais avançados pode ser necessária a associação de quimioterapia." A especialista acrescentou, ao Correio, que a imunoterapia também pode ser utilizada em casos recorrentes ou metastáticos, quando a cirurgia não é viável.
Redes sociais
Há dois anos, a mãe de três filhos decidiu publicar sua história no TikTok como forma de lidar com tudo o que havia vivido. No dia seguinte, o filho contou que o vídeo havia alcançado sete milhões de visualizações, número que mais tarde ultrapassou 16,5 milhões.
Apesar da repercussão, Mel preferiu se afastar das redes sociais por considerar que ainda não estava emocionalmente preparada para falar sobre a experiência. Neste ano, incentivada pela família a combater o isolamento, voltou a compartilhar a rotina.
"Estou compartilhando minha história para conscientizar as pessoas." Ela acrescentou: "Com esse tipo de câncer, muita gente não sabe quais sinais observar, e o diagnóstico e o tratamento precoces podem fazer toda a diferença."
Quatro anos depois do mergulho que mudou sua vida, Mel afirma que pretende aproveitar cada oportunidade que tiver.
"Passei pelo inferno para sobreviver, então vou fazer questão de viver minha vida. Sim, pode ser difícil, nem sempre é perfeito, mas a vida pode ser difícil para qualquer pessoa — você só precisa encontrar um jeito."
Para Gabrielle Scattolin, reconhecer os sintomas logo no início pode fazer diferença no desfecho da doença. "O estágio do tumor é um dos fatores mais importantes para o prognóstico."
Segundo ela, quando o câncer é diagnosticado precocemente e pode ser completamente removido, as chances de controle são significativamente maiores, enquanto os casos avançados costumam exigir tratamentos mais complexos e com maior risco de sequelas.

Revista do Correio
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