
Uma escultura habitável. Assim muitos se referem a Casapueblo, construída ao longo de décadas pelo artista uruguaio Carlos Páez Vilaró em Punta Ballena, no Uruguai, a cerca de 13 quilômetros de Punta del Este. Sua construção começou em 1958 sem planta definida, sem linhas retas e foi sendo ampliada até 2014, quando faleceu Vilaró, aos 90 anos. Hoje a casa tem mais de quatro mil metros quadrados e se tornou uma referência mundial de arte, engenharia e arquitetura, recebendo turistas do mundo todo. Local onde por muitos anos viveu Vilaró, por lá passaram personalidades como Henry Ford, Mercedes Sosa, Pepe Mujica, Vinícius de Moraes, Robert de Niro e tantos outros.
Em seu livro autobiográfico “Posdata”, Vilaró conta que a escolha do lugar se deve à lindíssima vista e ao lindíssimo pôr do sol de Punta Ballena, e de como o ambiente interferiu na própria construção: “Muchos han criticado mi excesso de pequeñas aberturas que prejudica la possibilidade de una visión generosa del paisaje tan excepcional que ofrece Punta Ballena. Pero desde que comencé a vivir em el lugar aprendí a reconocer los poderes de ese entorno poético y me di cuenta de que debía administrarlo ‘desde adentro’ para que no resultara abrumador.”
Vilaró, aliás, foi um artista multifacetado. Famoso pelos seus quadros e esculturas, atuou também no cinema e deixou uma obra literária diversa. No cinema, realizou o filme “Batouk” (1967), longa-metragem rodado na África, fruto de suas viagens e pesquisas sobre a cultura afrodescendente. O filme mistura documentário, ficção e música, trazendo registros de rituais e da vida cotidiana em países africanos.
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Na literatura, estreou em 1960 com o romance “Medio Tanque” e, na década seguinte, publicou “Candombe” (1970), um ensaio ilustrado sobre a tradição afro-uruguaia. Nos anos 1980, lançou “Mis cuentos de siete vidas” (1981), pela editora Casapueblo, e o marcante “Entre mi hijo y yo, la luna” (1982), relato sobre a tragédia dos Andes em que seu filho Carlitos sobreviveu. Já nos anos 1990 surgiram “Albert Schweitzer en el reino de los Galoas” (1996) e “Arca bichos” (1998), enquanto na década seguinte publicou “Entre colores y tambores” (2000), obra que une memória, pintura e música. “Posdata” (2012), já citado aqui anteriormente, foi escrito aos 88 anos do autor e é uma autobiografia poética e reflexiva, na qual revisita viagens, encontros e experiências, tendo a Casapueblo como eixo central de sua vida e criação.
Posdata e a Casapueblo
Posdata, publicado em 2012, traz 47 capítulos que relembram episódios da vida do artista, sempre escritos em primeira pessoa. Mais do que a história do próprio Vilaró, é um documento histórico sobre a América Latina em geral, e sobre as artes em particular. Há episódios com Juscelino Kubistchek, Piazzola, Andy Warhol, Orson Welles, Che Guevara, Pablo Picasso, Marlon Brando, Oscar Niemeyer e tantos outros nomes fundamentais do século XX.
O capítulo 29 do livro é dedicado especificamente a Casapubelo. Nas palavras do próprio artista, se trata “de mi casa, de mi obra, de mi escultura, y no sentía la labor como uma obligación sino como uma necesidad imposible de eludir. La experiencia fue tan válida que cuando me encuentro com estudiantes de ingeniería o arquitectura trato de recalcarles que lo más importante de una obra es ponerse en la línea del albañil y aprender com él a conversar con los ladrillos.”
Vilaró, neste capítulo, escreve sobre sua motivação, os primeiros anos de construção, a escolha do local; sobre a mesa em que recebia seus convidados, as janelas pensadas como quadros, a relação íntima da casa com o sol, a chegada cada vez maior de visitantes à medida que a fama da casa crescia mundo afora. Sempre com um texto extremamente poético, contando as histórias com a mesma naturalidade que nos provoca reflexões.
A experiência de se hospedar na Casapueblo
Conhecer a casa em si, tanto pela vista quanto pela sua singular arquitetura, já vale uma ida a Punta Ballena. Mas o ideal é você acessar o Museo Casapueblo, assim pode visitar parte da construção por dentro, apreciar quadros e livros do autor e ter acesso a um terraço que dá para o mar. O pôr do sol ali é tão famoso e concorrido que há uma cerimônia em sua homenagem, com presença de um violinista ao vivo e declamação de um poema de Vilaró na voz do próprio artista.
Foi em uma dessas visitas que descobrimos que o restante da casa é uma pousada, são surpreendentes nove andares abaixo de onde se acessa o museu. No ano seguinte, voltamos para uma diária na Casapueblo – e como demos sorte de pegar um dia de sol forte, tivemos mais um daqueles dias inesquecíveis.
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A casa por dentro surpreende pelo cuidado com os detalhes. Todas as paredes, mesmo as internas, têm aquela textura de como se fossem esculpidas a mão, os quartos são identificados com desenhos criados por Vilaró ao invés de números, e todos têm sacadas que dão para o mar e para o famoso pôr do sol.
Na área externa, há um restaurante com vista para o mar com comida ótima e preço civilizado, duas piscinas abertas (bem geladas, pelo menos no dia que fomos) e uma térmica fechada (esta meio deslocada do contexto do hotel, mas cumpre sua função). O ponto alto dessa área, para mim, são as cadeiras de praia na grama viradas para o mar e o acesso que a Casapueblo dá às pedras a sua frente, que não apenas nos aproximam do mar como nos permitem ter uma visão frontal inigualável da própria construção.
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